O Quinteto Sinestesia é uma formação clássica de quinteto de sopros – flauta transversal, oboé, trompa, fagote e clarinete. Constituído somente por estudantes do curso de Música da Universidade do Minho, o grupo tem sido reconhecido a nível nacional e internacional. No entanto, a incerteza do futuro não deixa de preocupar os jovens, principalmente numa área que consideram ser “desafiante”.

É preciso subir os três lances de escada do Edifício dos Congregados, no centro de Braga, para chegar a uma sala bastante grande, com um piano de cauda negro e três janelas brancas. Estojos de instrumentos e partituras decoram o espaço, como se tratasse de uma disposição habitual. Ainda é cedo, mas já se ouvem escalas e arpejos vindos das salas vizinhas, sons que as paredes não são capazes de conter. No centro, cinco cadeiras e cinco estantes musicais encontram-se em meia lua. O ensaio está quase a começar.

Inês Ferreira, 22 anos, abre a caixa da flauta transversal e encaixa as partes do instrumento prateado. Também Andreia Castro, 21 anos, já tem o oboé na mão. Emanuel Silva, 24 anos, coloca as partituras na estante, segurando na outra mão a trompa. Pedro Travanca, 22 anos, descansa o fagote no suporte e Jorge Sousa, 22 anos, aquece o clarinete. Esta já é uma rotina habitual dos cinco estudantes de Música que formam, desde 2019, o Quinteto Sinestesia.

O grupo surgiu no âmbito da disciplina de Música de Câmara e foi Pedro quem teve a ideia. “Eu cheguei a ter um quinteto [de sopros clássico] no meu primeiro ano”, mas como os restantes membros já estavam a terminar o curso, o grupo ficou por aí. No segundo ano, resolveu juntar alguns colegas e formar um novo quinteto. “Foi assim que apanhei estes marmanjos”, explica sorridente o fagotista. Ouvem-se risos na sala. “Após alguns ensaios, percebemos que trabalhávamos bem e tornamo-nos bastante amigos”. Não precisava de ter dito – percebe-se facilmente a cumplicidade entre os músicos.

O trabalho que o grupo tem vindo a desenvolver reflete-se também no reconhecimento que tem recebido. Só em 2021, o Quinteto Sinestesia conseguiu cinco prémios internacionais. O segundo lugar no “VI Odin International Music Online Competition” (Irlanda), uma menção honrosa no “II ISCART Competition” (Suíça), o primeiro lugar no “The 4th International Moscow Music Competition” (Rússia), terceiro lugar no “Marker And Pioneer International Music Competition” (Califórnia, EUA) e o primeiro lugar no “France Music Competition” (França) foram alguns dos momentos altos do grupo no ano passado.

Apesar de reconhecerem o valor dos prémios, referem que o mais importante é saber que o júri considerou que eram “um grupo com grande valor musical”. “É o culminar de todo o trabalho”. Quem o diz é Emanuel, que continua com a trompa na mão. Inês Ferreira interrompe – “eu não diria o culminar, mas sim a continuação. É sempre um bocadinho mais, um bocadinho mais”. É, na realidade, um trabalho que não se esgota na tinta do papel dos diplomas.

E depois do curso? Tencionam continuar? “Eu tenho isso em mente”, responde com entusiasmo a flautista. É uma opinião consensual entre todos. “Eu gostava de dar continuidade. Penso que o quinteto nos forneceu ferramentas extremamente importantes para o trabalho individual”. Pedro não tem dúvidas. Ao lado, Emanuel acena em concordância. “Uma coisa é ter um professor a dizer que tenho de estudar, outra coisa é sentir a pressão de chegar ao ensaio e levar as coisas bem tocadas para não estragar a qualidade musical do grupo”. Mais do que o valor obtido no final do semestre, o que importa é a música que fazem em conjunto. “Estamos a fazer isto porque gostamos e nos divertimos”.

 

No entanto, a continuação do quinteto é mais uma vontade do que uma certeza. “São coisas que agora não dá para prever”, admite Andreia Castro. A imprevisibilidade do que os espera e do que um estudante de música pode esperar quando entra no mercado de trabalho é também algo que não deixam de referir. “O trabalho não vai aparecer assim, é uma procura e a sorte também”. Não basta enviar o currículo para uma empresa, “a música é diferente, um pouco mais ingrata”. Inês partilha a mesma visão – “tudo o que seja relacionado com artes e performance é muito incerto. Depende muito da vontade de cada um de arriscar e tentar. Receber nãos e voltar a tentar”. A expressão da jovem revela esperança, não receio.

A 29 de novembro de 2021, foi aprovado o Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura pelo XXII Governo. O documento reconhece a “intermitência, a sazonalidade e a ausência de estabilidade” que caracteriza a atividade profissional do setor cultural, referindo que um dos principais objetivos do estatuto é contribuir para “a criação de boas condições de trabalho”. No entanto, a medida é considerada insuficiente, como o Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE) já manifestou em diversas ocasiões.

 

“Temos de ir aos teatros. Temos de ir aos concertos”

Segundo o Inquérito das Práticas Culturais dos Portugueses relativo ao ano 2020, apenas 6% da população assistiu a pelo menos um concerto de música erudita e apenas 2% assistiu a uma ópera. O relatório revela igualmente que os principais consumidores são “grandes empresários e profissionais liberais”, com rendimentos mensais frequentemente acima dos 2700 euros.

Emanuel considera que a culpa está também nos próprios músicos, que não vão a concertos de música erudita. “Temos de ir aos teatros, temos de ir aos concertos. Pagar bilhetes e dar dinheiro às orquestras”, refere exaltado o jovem trompista. Já Andreia acredita que as pessoas preferem ouvir outros géneros de música, porque “vão aparecendo mais e são coisas que se ouvem no carro”. Jorge concorda – muitas vezes o povo pensa que é música erudita, quando na realidade não passa da variação de uma música pop.  “É um bocado as modinhas”, ouve-se do outro lado da sala.

“Porque vou ouvir um concerto ao Coliseu do Porto se me basta ligar os fones e ouvir uma sinfonia já aqui?”. Pedro encontra nas novas plataformas a justificação para as pessoas não irem às salas de concerto. Mas não é a mesma coisa. Andreia vai mais longe – só presencialmente se sente “a magia de cada pessoa”. De facto, é um momento difícil de reproduzir. É preciso estar lá, como diz Inês. É preciso ver e ouvir, afundar na intensidade da música e dos músicos.