Live at Montreux 2003, como o nome antecipa, é uma gravação ao vivo do concerto da banda Jethro Tull, no Festival de Jazz Montreux, em 2003.  Lançado em 2007, pela Eagle Records, o álbum é composto por dois CDs e 19 faixas que não deixam o ouvinte indiferente.

Apesar de ter sido fundada em 1967, a banda britânica de rock progressivo sofreu várias mudanças na sua formação ao longo das décadas. O único membro que se manteve fixo foi Ian Anderson, o fundador, compositor principal, vocalista e flautista. Além de Anderson, neste álbum, Jethro Tull é composto por Martin Barre, Andrew Giddings, Doane Perry e Jonathan Noyce.

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O álbum é um excelente exemplo da irreverência e ousadia da banda, que se destaca principalmente pela forma como funde vários géneros de música. E fá-lo com bom gosto. Ian Anderson é capaz de transformar obras de música erudita em verdadeiras obras-primas de rock. Também o folk encontra lugar na música de Jethro Tull e, mais concretamente, não deixa de estra presente neste álbum.

A terceira música do álbum – “Bourée” – é, nada mais nada menos, do que uma adaptação do quinto andamento da “Suite em Mi Menor” para alaúde composta por Johann Sebastian Bach. Estamos a falar de uma obra do século XXVIII. Com a sua flauta transversal, Ian Anderson interpreta o célebre motivo barroco, mostrando a todos e a todas o quão versátil o instrumento consegue ser.

Após apresentar o tema de uma forma muito semelhante à versão original, acompanhado por cravo, o flautista executa uma série de variações.  O músico usa e abusa do flatterzungue, do pizzicato de lábios, do cantar e tocar em simultâneo, ao mesmo tempo que explora todo o registo da flauta. O som não é limpo ou preenchido de harmónicos como mandam os livros de técnica, mas tem o timbre perfeito para transportar o instrumento para um ambiente completamente diferente. Esta música foi lançada, pela primeira vez, em 1969 no álbum Stand Up.

Da mesma forma, a quinta faixa do primeiro CD – “Pavane” – consiste numa adaptação de um clássico de música erudita. O tema inicial de uma das mais conhecidas obras de Gabriel Fauré, do período romântico, é completamente revolucionado. Flauta e guitarra contrapõem-se de uma forma completamente envolvente e intensa. Alguns ritmos e sonoridades trazem a lembrança, embora timidamente, de música latina. É com toda a certeza uma música que merece ser ouvida.

O álbum engloba, como se pode constatar, vários instrumentais. No entanto, algumas faixas como “Nothing is Easy” ou “Life is a Long Song” têm também voz. É Ian Anderson, que sempre com a flauta na mão, toca e canta em alternado. Em determinados momentos, o músico apenas tem breves segundos para fazer a troca, mas a tarefa é realizada quase sempre com bastante sucesso. Um exemplo muito claro é a faixa “Beside Myself”.

Live at Montreux 2003 e praticamente todo o trabalho de Jethro Tull fazem as maravilhas de todos os flautistas que ouvem rock e não só. O cruzamento entre dois géneros, à primeira vista, antagónicos resulta numa sucessão de melodias e harmonias completamente inesquecível e distinta. Vale a pena ouvir.