Foi rejeitada, na última semana, a proposta de lei da licença menstrual, em Portugal.

Assinala-se este sábado, dia 28 de maio, o Dia Internacional da Saúde Feminina. A data foi criada em 1987, com o objetivo de alertar a população para a desigualdade entre mulheres e homens no acesso a cuidados de saúde. A efeméride visa a promoção de ações de sensibilização para a importância da saúde feminina e do acompanhamento médico de todas as mulheres.

Em entrevista ao ComUM, Patrícia Lemos, educadora menstrual e criadora da plataforma educacional Círculo Perfeito, comentou a recente lei da licença menstrual, aprovada em Espanha. Esclareceu que se trata de um “enquadramento legal para pessoas que têm patologias associadas ao ciclo menstrual e não ao ciclo em si”. Frisou que o enquadramento legal deve proteger quem vai usufruir da licença, assim como garantir que esta não vai ser uma desvantagem ao nível da contratação.

A nível nacional, a profissional apontou uma falta de maturidade, em termos de opinião pública, para discutir este assunto e “perceber o que é e o que não é o ciclo menstrual”. Ainda, sublinhou que “o ciclo menstrual não é uma patologia” e que os sintomas a ele relacionado podem ser o resultado de um problema de saúde. Assim, explicou que uma dor menstrual forte e incapacitante ocorre em mulheres que têm endometriose, por exemplo, “mas não é o ciclo menstrual que põe as pessoas doentes”. Desse modo, o objetivo do seu trabalho passa por transmitir que não é suposto sentir dor nem ficar incapacitada durante a menstruação.

Patrícia Lemos identificou como maior problema a desinformação. Explicou que se trata de um obstáculo que atravessa várias gerações, dado que “normalizamos a ideia de que o ciclo menstrual tem que caber numa série de parâmetros”. Contou que é comum muitas mulheres procurarem soluções rápidas para os seus problemas, mas “nada no ciclo menstrual é rápido”. A profissional advertiu para a necessidade de, em primeiro lugar, “combater toda a desinformação para depois dar o enquadramento ao nível da saúde”.

A educadora vê as escolas como um meio privilegiado para chegar às massas e “não fazer diferença entre quem menstrua ou não”, uma vez que “este não é um assunto só de mulheres, toca a toda a gente”. Na sua ótica, falta explicar o que fazer quando o ciclo menstrual está diferente do que é suposto. Daí defender que “a educação sexual e a educação menstrual devem ser separadas”. “Uma melhor educação menstrual pode ajudar numa maior qualidade de vida e numa chegada a um diagnóstico mais precoce”, alertou.

A profissional defende que a educação menstrual deve ser transmitida de uma forma “muito prática e objetiva para que as meninas percebam do que é que têm de ir à procura”. A alimentação, o horário de sono, a prática de exercício físico e possíveis patologias – como problemas da tiroide ou anemia – são fatores que determinam a forma como o ciclo menstrual funciona, esclareceu Patrícia Lemos. Referiu, ainda, que nos primeiros anos menstruais, é comum ter ciclos irregulares – “vamos esquecer a questão dos 28 dias” esclarecendo que, nesta altura, o ciclo pode durar 45 dias “sem que isso seja um problema”. Nesse sentido, clarificou que “há toda uma maturidade, ao nível do processo de maturação do eixo neurofisiológico, que leva tempo”.

“Ainda há imenso tabu”, constatou. Os mitos, crenças e preconceitos perpetuados continuam a prejudicar a saúde feminina, na visão da educadora. Exemplificou com casos de mulheres com problemas de foro ginecológico que acabam por não revelar a ninguém por terem vergonha. “Precisamos de começar a desconstruir esses estigmas todos, que estão sobretudo em cima das mulheres”, frisou.

Patrícia Lemos concluiu que a “perpetuação de informação circulante antiga e obsoleta” é o que está a impedir a comunicação sobre estes assuntos, passando por uma visão de “patologia-fármaco”. Lembrou que a “autoridade sobre o corpo tem de ser resgatada pelas mulheres. É o meu corpo, são as minhas regras”.