Nasce em Este, na freguesia que o batizou, atravessa Braga e Famalicão até se juntar ao Rio Ave, na cidade de Vila de Conde. Em alguns pontos, apenas tem um palmo de profundidade, noutros um pouco mais. Nos últimos anos, tem-se procedido à requalificação e limpeza do Rio Este, mas a sua poluição continua a ser uma realidade.

Ao longo de décadas, o rio tem sido alvo de frequentes descargas poluentes, que contaminam a fauna e flora envolventes. Em algumas situações, o impacto é devastador. Por esta razão, despoluir o curso de água sempre foi uma preocupação dos respetivos responsáveis. Altino Bessa, vereador do Ambiente e Alterações Climáticas na Câmara Municipal de Braga, deu mais um passo nesse sentido ao criar, no último trimestre de 2021, uma equipa “dedicada quase em exclusivo às descargas no Rio Este” – a equipa ambiente da Proteção Civil. Além de fiscalizar, o grupo, de acordo com o autarca, faz “o trabalho de busca e pesquisa na origem da eventual descarga” com “o levantamento de tampas”.

O projeto sucede a um conjunto de trabalhos desenvolvidos pela equipa do vereador. Engenheiro de formação, Altino Bessa assumiu o cargo em 2013, tendo sido sempre responsável pelo pelouro do Ambiente e Alterações Climáticas na autarquia. No seu gabinete, numa mesa redonda de quatro lugares, conta que uma das primeiras prioridades foi retirar o cimento que permeava o leito do rio. No  passado, “as técnicas eram completamente erradas, porque o rio estava emparedado com cimento de um lado, cimento do outro e no fundo. Isto não permitia a biodiversidade e a renaturalização e também o usufruto das pessoas do rio”. Deste modo, em conjunto com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), foi realizada “uma obra de quase 600 mil euros” para requalificar o rio.

Joana Oliveira | ComUM

Ao lado, o assessor acena em concordância. Também a plantação de árvores foi uma das primeiras tarefas, um pouco contra a pressão pública. As pessoas achavam que era preciso cortar a vegetação, porque “assim é que era limpo”, refere com um revirar de olhos. Foram plantadas, na altura, “170 árvores”, além das que, entretanto, foram crescendo. “São centenas de árvores. Hoje está ali um pequeno habitat daquilo que é uma recuperação à volta do Rio Este”.

Mas não foi só. Desde 2014, entre maio e setembro, são recolhidas semanalmente análises bacteriológicas em 13 pontos diferentes. “Temos milhares de análises feitas ao Rio Este. Não há uma única de 2014 para trás”. Diz Altino Bessa. O objetivo é perceber quais as zonas mais afetadas, de modo a proceder-se a uma fiscalização localizada. E os resultados? Não são do conhecimento público? O vereador estranha a pergunta. “São tantos dados, tanta coisa. Nunca sentimos que houvesse necessidade disso, mas nunca escondemos nada, até porque esses dados vão para todas as entidades”. GNR, PSP, APA e o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) são alguns dos nomes mencionados por Altino Bessa.

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Durante o primeiro mandato, em 2016, foi também realizada uma “intervenção importante” de “limpeza exaustiva” do rio num espaço de dois quilómetros na zona da Bosch, em Ferreiros. O Rio Este estava “completamente assoreado” devido ao acumular de lixo durante décadas, relata com indignação. “Nós enchemos mais  de 300 camiões de lixo de lá e era lixo mesmo. O cheiro era a putrefação, esgoto completo e isso foi retirado”.

A qualidade da água melhorou. É a conclusão a que chega o vereador. Há uma “infinidade de espécies quer ao nível da fauna como da flora” que não existia há oito anos. “Lontra, toirão, pequenos anfíbios, guarda rios e pequenos pássaros” são alguns dos animais que agora habitam o Rio Este. “Só há um fator para que isso aconteça, que se chama qualidade da água”. É claro o tom de satisfação e de orgulho.

Quem percorre a ecovia que acompanha o percurso do rio na cidade de Braga consegue perceber  o mesmo. Árvores de várias dimensões debruçam-se sobre o leito onde a água corre aparentemente limpa. A tranquilidade do ambiente apenas é interrompida pelo frenesim do trânsito a que os bracarenses já se habituaram. Um pequeno peixe rodopia em consonância com o ritmo da corrente. O Rio Este mudou nesta última década. Para melhor.

No entanto, as descargas ainda acontecem. Miguel Godinho, estudante da Universidade do Minho, vive há três anos na Residência Universitária Lloyd Braga, nas imediações do Rio Este. Sentado numa mesa de piquenique, fala de um episódio que presenciou entre março e abril do ano passado junto ao “International Iberian Nanotechnology Laboratory”. Está frio e o vento incomoda. “Comecei a reparar em algumas descargas com uma tonalidade muito azul e foram muitas durante um período de tempo bastante longo”. “Estás a ver quando deitas um detergente na água e aquilo fica com uma espécie de arco íris? Foi isso.” É assim que Miguel, claramente nauseado, descreve o que viu. “Pareceu-me uma grande quantidade, um abuso, mas não sei se foi o necessário para intoxicar o rio”.  Viu descargas de “grandes dimensões” durante uma a duas semanas. Depois pararam e, passados alguns dias, viu isso novamente. Desta vez, “mais pequenas”.

A poucas dezenas de metros da ecovia, no primeiro andar de um prédio já antigo, encontra-se a sede, em Braga, da Associação Amigos do Rio Este (AREA), fundada em 1996. O espaço está limpo, mas pastas e arquivos transbordam no balcão e nas mesas. O sol reflete-se na janela, indiciando o final do dia. “Acontecem coisas que não deveriam ser permitidas. Ainda há pouco recebi mais uma mensagem de uma pessoa do Porto que viu uma notícia sobre uma descarga no rio”. Quem o diz é Carlos de Faria, presidente da associação. A autarquia de Braga “eventualmente tem equipamento para perceber onde estão a ser as descargas, mas isto tem sido tão recorrente que a Câmara não está a ter sucesso”. “O ambiente é de total impunidade e as pessoas não veem as consequências”. Percebe-se o seu estado de frustração.

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O município tem de assumir um papel “mais ativo”. “Só assim as coisas vão mudar”. Carlos de Faria não tem dúvidas disso. Mas a solução passa também por uma mudança de mentalidades. Apesar de reconhecer que a aproximação da população ao Rio tem levado a uma maior consciência, “ainda há quem não valorize as questões ambientais”. O presidente da associação reitera que “as pessoas têm de perceber que, sem a natureza, não conseguem viver”. O seu olhar percorre a papelada que revolve em cima da mesa. “Quando chegarmos a uma fase em que tenhamos uma verdadeira consciência ambiental, o Rio Este vai ser um rio extremamente agradável”.

O vereador Altino Bessa admite que é difícil encontrar uma solução definitiva para o problema, porque é necessário que exista uma “autofiscalização” por parte de todos os habitantes da cidade. “Tudo o que vai parar a uma sarjeta vai parar a um rio. Há algum sistema no mundo que fiscaliza as sarjetas no seu território? Não, isso é impossível”. Levanta as mãos e insiste que não depende só da autarquia. “Quando deitamos qualquer coisa [nas sarjetas], vai parar aos rios e depois ao mar. Há sempre esse conceito de que a responsabilidade é dos outros. Nunca olhamos para a responsabilidade individual. Não há nenhum sistema que funcione bem, se não tiver a cooperação dos seus cidadãos”.

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Mas isto não significa que todas as descargas resultam de más intenções. Muitas vezes, as pessoas não têm noção do que estão a fazer. “Uma casa com mais de 20 anos tem a probabilidade de cometer uma infração, porque há 25 anos não era obrigatório ligar as águas, por exemplo, das cozinhas às águas residuais”. “Há ligações ilegais às águas pluviais e mistura das águas residuais nas condutas com as águas pluviais” que não são conhecidas. “Nós temos vindo a corrigir muitas situações”, assegura Altino Bessa, admitindo que a própria autarquia foi, “em algumas circunstâncias, um agente poluidor”. Para explicar melhor a dimensão do problema, o vereador refere que, apenas nas últimas fiscalizações, se percebeu que “entidades públicas ao nível do ensino, inclusive uma instituição de grande nome nacional e internacional pública”, tinham ligações ilegais sem saberem. Altino Bessa não divulga nomes. “São ligações muito antigas”, justifica.

A poluição no Rio Este vai deixar de ser uma realidade? Carlos de Faria sorri, afirmando que as suas expectativas “sempre foram muito positivas”. Ao longo das últimas décadas, a Associação Amigos do Rio Este tem realizado “dezenas e dezenas de palestras em autarquias e escolas” e a verdade é que se tem notado uma evolução. O presidente fala do quanto é agradável passear junto ao curso de água, especialmente em determinados locais. “Isto é um sinal muito positivo. Tenho esperança de que um dia vamos ter peixes a durarem muito tempo.”