A obra mestre da criatividade serve-se por Daniel Kwan e Daniel Scheinert em 140 minutos que se expandem a múltiplos universos, num sortido de dimensões estéticas e numa explosão de emoções que são difíceis de explicar a quem não vivenciou este fenómeno cinematográfico inigualável. Tudo em todo o lado ao mesmo tempo (2022) arranca a todo o gás e não trava até chegar ao seu destino. É uma viagem extremamente coreografada e excêntrica que, ora roçando o hilariante, o dramático, o científico ou a ação, toca sempre em questões que têm vindo a ser lançadas para o buraco negro da existência humana.

De certeza que todos já refletimos em toda a imensidão de possibilidades de vidas que poderíamos ter, mas que não vivemos. Pois bem, a protagonista desta longa-metragem atravessa vários universos paralelos e conhece as diversas versões de si mesma. Everyln Wang, como se chama, é uma emigrante chinesa, dona de uma lavandaria que lida com problemas nas Finanças. Em simultâneo, tenta salvar a sua minúscula realidade numa vastidão de cosmos que a tenta engolir. É assim que começa a estonteante e fugaz jornada que acompanhamos em busca do sentido que, apesar de não parecer, está bem presente em cada ínfimo detalhe.

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As cenas de luta são uma sequência ritmada de movimentos que se entrelaçam em perfeita sintonia com a composição de Debussy, por exemplo. As montagens são frenéticas, os cortes milimetricamente pensados. O guarda-roupa altera-se de forma vertiginosa, no meio dos combates de kung-fu. O vestuário é uma rebentação de cor, irreverente e alegórico, revestindo a espetacular atuação de Stephanie Hsu de ainda mais brilho. Através de geniais referências visuais a Wong Kar-wai, a filmes de culto como o Ratatouille (2017), à animação japonesa Paprika, ou ao mítico Odisseia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick, os diretores voam mais alto no guião e prendem ainda mais o espectador. Mas este frenesim absurdo de uma técnica fenomenal não é o grande êxtase da obra. Para além de toda a loucura caótica que é reproduzida com o maior rigor e engenho, destaco os princípios retratados que não se conseguem esconder em galáxia alguma. Mediante as questões fraturantes que vão contaminando todo o filme, como a de qual é o sentido da vida, surgem algumas respostas que nos vão mostrando aquilo que é imprescindível em qualquer universo: o amor, a gentileza, a família, as relações humanas, a esperança. E aí a longa-metragem volta a surpreender-nos com um conjunto de reflexões filosóficas que equiparam, e até mesmo ultrapassam, os prodigiosos efeitos técnicos. Evelyn desprende-se do pensamento niilista inicial e volta a encarar a sua realidade, depositando-lhe sentido. A vida nos múltiplos universos que visitou pode parecer a ideal, mas é no seu quotidiano corriqueiro que estão os principais sentidos da sua existência.

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Nas inúmeras vidas de Evelyn, quer tenha os dedos das mãos em forma de salsichas enormes e flácidas, quer seja uma mera pinhata ou uma mestre das artes marciais, Michelle Yeoh exala sempre o mesmo talento refinado. Contudo, o grande papel do filme é de Ke Huy Quan, um cameleão da atuação que nos mostra várias versões de Waymond Wan, o marido de Evelyn. Num dos universos paralelos, é um lutador experiente e enérgico, e até com uma simples fanny pack consegue derrotar os mais robustos obstáculos. Na realidade em gere uma lavandaria com a esposa, luta com as palavras, com a sensatez e com a gentileza. Stephanie Hsu faz de Joy, a filha: um buraco de frustrações e de crises existenciais que se formaram pelos fracassos da progenitora, que a sobrecarregam diariamente.

Tudo em todo o lado ao mesmo tempo é uma erupção criativa que faz muito mais do que entreter. A longa-metragem deve ser digerida com atenção, mas, principalmente, deve ser consumida ao lado de alguém que amamos. No final, torna-se ainda mais especial.