No debruçar de um novo ano, Isabel Allende presenteia-nos com um recente e inspirador romance. Decorrido entre duas grandes pandemias, a autora relata a turbulenta jornada de Violeta del Valle, interligando-a com os momentos mais significativos da História.

Nascida na América do Sul, em 1920, Violeta estivera desde cedo ambientada a uma vida elegante e descomplicada. Contudo, esta não era uma realidade comummente partilhada. De facto, o nascimento de Violeta fora assinalado pelas graves consequências da Grande Guerra e a funesta chegada da gripe espanhola à sua terra natal. No entanto, e apesar de numerosa, a família del Valle conseguira asseverar a sua condição social, mantendo uma agradável vida urbana.

Todavia, a realidade de Violeta viria a mudar 9 anos mais tarde. A 24 de outubro de 1929, o mundo depara-se com a maior crise financeira registada até à data. E, apesar dos esforços da numerosa família del Valle, a realidade levara a melhor. Assim, a até então abastada família é forçada a mudar-se para um local distante, deixando para trás uma herança de gerações.

A partir daí a história da protagonista desenvolve-se com mais exclusividade na personagem. Ao longo da obra, Isabel Allende conta-nos as primeiras paixões de Violeta, mas também os seus intensos desprazeres. Recorda ainda os momentos de carência e fortuna da personagem, traçando através desses elementos o crescimento de Violeta enquanto mulher e elemento da sociedade. A jovem figura irá amadurecer sob a alçada dos momentos mais marcantes da História da Humanidade, lutará pelos direitos das mulheres, enfrentará a trágica Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, a recente pandemia de Covid-19.

Considero que uma das maiores virtudes desta obra prende-se com o propósito da sua escrita. Segundo a célebre autora, Isabel Allende, Violeta foi redigida em memória à sua mãe. Motor da sua inspiração, a escritora revelou que a sua mãe nasceu em 1920 e faleceu em 2020, tal como del Valle. A autora divulgou ainda que Violeta del Valle é a figura que gostaria que a mãe tivesse sido, se tivesse tido a oportunidade de ser independente e se sustentar sozinha.

Outro ponto que cativa o leitor durante a leitura da obra é a constante luta da figura feminina no contexto social. Numa altura em que os direitos das mulheres eram pouco valorizados e a existência de classes sociais era comummente aceite, Violeta del Valle demonstra-se uma figura marcante e arrojada, encarando as mais diversas adversidades, sempre com o apoio da família. A personagem tem ainda um papel notável na luta contra a violência doméstica, tornando-se um ponto de referência.

Por fim, a obra apresenta ainda a influência da família. A autora faz questão de reavivar ao autor, através de uma escrita subtil e de fácil leitura, o papel da família na vida da personagem e vice-versa. A obra retrata-nos Violeta como uma mulher apaixonada, como uma mãe e uma avó intrépida, cujo foco principal é a luta pela família.

Redigida através da recordação nostálgica de um grande amor, Isabel Allende abre portas à imaginação do leitor e à compreensão das nuances da vida de uma personagem intrigante e emotiva. Violeta é uma obra que irá surpreender, como aliás é comum nas obras de Isabel Allende.