Vida Interrompida, publicado em 1993, compacta uma atmosfera claustrofóbica que nos prende num clima desconfortável e melancólico. Em tom de memória, Susanna Kaysen inicia um debate sobre o conceito de (in)sanidade e narra a sua perceção em relação ao mundo em que vive.

Após uma tentativa de suicídio, à qual a protagonista nega ter sido intencional, é recomendado que Susanna seja acompanhada psicologicamente durante um período superior ao das suas consultas semanais. Contudo, o plano inicial de duas semanas estende-se para 18 meses devido ao diagnóstico de um transtorno de personalidade borderline. Assim, Vida Interrompida torna-se numa obra de cariz autobiográfico que narra o tempo em que a autora viveu no hospital psiquiátrico McLean, em Massachusetts. Conhecido por hospitalizar artistas como James Taylor, Ray Charles e a escritora Sylvia Plath, o hospital progressista adquire um caráter quase premonitório da narrativa.

A representação mediática de transtornos de personalidade é crucial devido ao estigma desenvolvido ao longo dos anos. Nesta obra literária, somos inevitavelmente obrigados a lidar de perto com esta condição. O leitor sente o que Susanna sente, quer sejam os picos de êxtase, ou os momentos de penúria, devido à descriminação a que foi sujeita.

Ademais, as discussões a respeito da saúde mental eram, nos anos 1960, imensamente frágeis e distorcidas, o que se refletiu nos relatos marcantes da autora sobre os tratamentos psiquiátricos absurdos e cruéis. Numa época onde o discurso acerca do biologismo era proeminente, os avanços nos setores da saúde mental legitimavam essas práticas desumanas, principalmente sobre mulheres.

Não obstante à dificuldade em manter relações interpessoais estáveis, Susanna introduz-nos várias personagens, que eram pacientes no mesmo hospital. Ao partilharem as suas experiências, diagnósticos e formas de lidar com as circunstâncias a que estão sujeitas, Lisa, Polly, Georgina e Daisy tornam-se profundamente necessárias para a sua recuperação.

A escrita de Susanna revela uma procura insaciável pela compreensão interior. A sua mente é completamente fascinante e preenche as poucas páginas deste livro com reflexões existencialistas, críticas sociais, e, sobretudo uma tentativa de entender as próprias emoções. Apesar da facilidade da leitura, consegue abordar temas difíceis. Desde suicídio, distúrbios alimentares, depressão e vários transtornos psicológicos. Desta forma, torna-se um hino de representatividade que capta a essência pura do que é viver preso na própria mente.

A narradora niilista opta por capítulos pequenos e frases curtas que permitem a transição brusca de ideias e emoções. Numa página, Susanna sente uma raiva imensa por se ser tão diferente de todas as pessoas à sua volta. Na página seguinte, descreve os breve momentos de felicidade genuína que sentiu com as suas amigas do sanatório. A sua confusão mental e a abundância de pensamentos são expressos e materializados nas opções estéticas e formais da autora.

Susanna Kaysen não pretende forçar moralismos ou modificar opiniões. A beleza da sua escrita está na forma imponente como abriu a sua alma para contar tudo o que sentia. A escrita é intuitiva, sincera e brutal. Apesar de curto, o livro foi  meticulosamente premeditado. Não há partes a mais, nem a menos. A narrativa é completa sem cair em detalhes desnecessários.