A Backstage foi a primeira escola a oferecer um ensino interdisciplinar de dança, em Braga, aquando da sua abertura há 12 anos.

O mundo da dança profissional está muitas vezes associado a um lado obscuro de alta pressão e rigidez excessiva. Em entrevista ao ComUM, Rosália Passinhas, diretora e coreógrafa da Escola de Dança e Artes Performativas Backstage, desmistifica esses pressupostos.

O equilíbrio entre exigência e bem-estar

A exigência de um nível de perfeição absoluto e de horas excessivas de treino aos bailarinos é, para Rosália Passinhas, um mito. Face a esses estereótipos, a diretora esclarece que, sendo este um meio em que o corpo é o “instrumento para contar histórias e transmitir emoções, temos de o trabalhar para atingir um movimento livre”. Acredita que “quando fazemos algo, devemos dar o máximo das nossas capacidades”. Assim, discorda que seja uma exigência imposta de fora: “tem de vir de nós”.

A questão dos distúrbios alimentares derivados da exigência e controlo do peso dos bailarinos é outro dos mitos que a coreógrafa considera “hoje em dia ultrapassados”. “O mundo da dança está muito diferente”, constata. A profissional clarifica que os corpos dos bailarinos são agora diferentes “e querem-se diferentes”. Na sua perspetiva, existe “outro entendimento de que os corpos devem ser versáteis”.

Gerir emoções e resultados 

A nível emocional, há toda uma preparação, sobretudo antes das grandes competições. “Nós só podemos entrar em competição se, acima de tudo, formos competitivos com nós próprios”, frisa Rosália Passinhas. A responsável costuma dizer aos alunos que “têm de estar preparados para tudo”, visando gerir as reações a quaisquer que sejam os resultados obtidos. Ainda que o trabalho desempenhado tenha sido excelente, os resultados nem sempre correspondem às expectativas. Por isso, a coreógrafa passa aos alunos que, inevitavelmente, “vai aparecer alguém melhor do que eles”. Assim, explica que o mais importante é “chegar a palco e dar o nosso melhor com a capacidade que temos naquele momento”. Ainda, sublinha a importância da compreensão, para que os alunos não acabem com um sentimento de frustração.

Estatutos e apoios ao setor

Rosália Passinhas descreve o processo de preparação para a recente participação na Dance World Cup 2022 como “muito exaustivo para todos”. Esse percurso trouxe ao de cima os problemas com que os profissionais de dança se deparam na vida profissional. “Não existe um estatuto de bailarino de alta competição”, adverte a diretora. As crianças e adolescentes veem-se obrigados a cumprir as mesmas datas e horários que os restantes alunos. A acrescentar, ainda têm de ir para a escola de dança e ensaiar todos os dias, resultando num maior desgaste dos bailarinos.

A profissional aponta para a cultura do país e a falta de apoios como obstáculos que encontra no quotidiano. Isso reflete-se nos resultados das competições mundiais, quando Portugal não consegue estar ao nível dos outros países. “Nunca conseguimos estar no topo. Há outra cultura lá fora”. Enquanto em países estrangeiros as crianças entram no mundo da dança e das artes bastante cedo, por vezes até fazendo parte da formação escolar, em Portugal isso não acontece. Rosália Passinhas conta que os alunos chegam à academia a partir dos cinco anos, às vezes até aos nove, o que dificulta o alcance de um nível superior.

A criação e as liberdade

O processo criativo começa, para a coreógrafa, a partir de um tema ou de uma música. “Costumo visualizar a peça pronta em palco”, revela. Daí para a frente, “é sempre uma adaptação”, uma vez que “a criação não tem uma liberdade absoluta”. A profissional explica que criar para competição acarreta uma série de fatores que delimitam a peça. “Está tudo balizado”, esclarece, referindo-se às regras de cada competição. Rosália Passinhas relata que, a par deste processo, vem muitas vezes “momentos frustrantes”. “Quando sabemos que uma peça está terminada?” questiona. Na sua ótica, a resposta aparece com os “anos de trabalho e de prática”. Considera tratar-se de “um lado mais crítico e pessoal”.

A pandemia veio intensificar a necessidade de criar e de aproveitar cada momento e oportunidade de contacto com a arte. A diretora reconhece que “a maioria das pessoas que está nesta área não o faz pelo dinheiro”, mas sim por uma “necessidade interna de se exprimir”. Acrescenta que “quando nós, artistas, não temos isso não nos sentimos nós próprios. Falta o palco, o público e a criação”. Por outro lado, Rosália Passinhas considera que “veio catapultar muitas coisas que estavam no limbo”. Foi criada uma associação de escolas de dança e bailarinos, além de facilitar a comunicação como forma de mostrar o trabalho realizado. Para muitos alunos, teve um efeito estimulante, portanto “agarraram isto com garra” e “trabalharam ao máximo” desde então.