Spiderhead abalou os estúdios da NETFLIX, a 11 de junho de 2022, com a promessa de uma obra cinematográfica de ficção científica sem precedentes. Um plot aparentemente inabalável, mas que caiu na esfera superficial do streaming.

Baseado na história Escape frome Spiderhead (2013) de George Saunders, o filme SCI-FI consiste num programa de cobaias submetidas a drogas experimentais. O processo de dosagem é realizado numa ilha clandestina com uma vista paradisíaca. Um projeto comandado por Steve Abnesti sob a alçada de um alegado comitê de protocolos, servindo-se do seu o seu poder para manipular os prisioneiros. Contudo, existe um diferenciador do argumento, cada individuo encarcerado é um ex-condenado com uma história. Assim, é criado um mistério envolta dos prisioneiros, tornando-se algo essencial para a construção da narrativa e de todo o seu corpo psicológico.

Contrariamente ao cliché da captura de reféns, os participantes optaram pela troca voluntária das condições insalubres e miseráveis das prisões institucionais, por instalações luxuosas, com direito a comida gourmet e entretenimento. Livres para circular pelos corredores com acesso livre ao escritório do diretor, os condenados vivem numa utopia da liberdade. Mas qual é o preço? Submeterem-se a drogas que testam os picos ingremes das emoções e as sensações mais profundas, provocando momentos de ausência de tristeza, amor efervescente ou até medo permanente.

Assim, pode estabelecer-se uma dicotomia entre a sublimidade que compõe o espaço e a falta de moralidade das ações de Steve (Chris Hemsworth) e de Mark (Mark Paguio). As personagens mascaram as suas ações com a premissa de uma solução para curar a humanidade. Este contraste cria uma visualidade extremamente interessante, que conjugada com a utilização eximia dos grandes planos cria momentos únicos que transfiguram a dor das personagens, principalmente Jeff (Miles Teller). Outro fator fundamental para a obtenção de significado é a atuação impecável do elenco que conseguiu pegar em diálogos superficiais adequando-os a um clima tanto de comédia como de angústia.

Não obstante, é no desenvolvimento da narrativa que o filme faz transparecer a sua fragilidade, mais concretamente, a falta agilidade na manutenção do enredo. Apesar de ser uma obra que, alegadamente, fala sobre narcóticos e se insere no mundo da ciência, não tem nada de explanatório sobre as drogas utilizadas.

O contexto é, assim, cheio de lacunas existenciais que caiem em diálogos frustrantes e ignorantes acerca da gravidade dos efeitos de tais drogas para a humanidade. É uma clara escolha da produção para apelar às tendências, mas cai no erro de prometer um género que não conseguiu acompanhar.

Tudo isto, acabou por se refletir no desenlace apressado e desintegrado que não deixa espaço para assimilar os factos e integrar as cenas num puzzle. Os momentos fulcrais como as motivações do empresário, a história de Jeff, o típico herói prisioneiro e injustiçado cheio de valores e factos chocantes sobre o caminho que levou os condenados aquele lugar só são fundidos no final do filme. Para além disso, há um emaranhado de traições e mentiras que não foram explicados aos espetadores. Um enredo cheio de química desperdiçada, mas que consegue proporcionar risadas e uma estética visual bastante agradável.