Apresentado, pela primeira vez, no festival de Cannes, Broker mostra uma família algo peculiar e improvisada, com todas as suas complexidades e excentricidades. A longa-metragem coreana estreou em junho e promete entreter, divertir, mas, acima de tudo, chocar.

O filme começa sem rodeios, direto ao tema do abandono infantil, com So-young (Ji-eun Lee) a deixar o seu bebé numa Baby Box. Trata-se de um local onde recém-nascidos podem ser deixados anonimamente e levados para orfanatos por alguém do outro lado. Contudo, Sang-hyeon (Song Kang-ho) e Dong-soo (Dong-won Gang), os responsáveis pela Baby Box no momento, tinham outros planos. Apagando o vídeo das câmaras de vigilância que mostra o bebé a ser pousado, os dois preparam-se para repetir um crime que já lhes é usual: tráfico humano.

Aquilo com que Dong-soo e o amigo não contavam era que So-young voltasse à procura do filho, Woo-sung. Ao perceber o seu plano de vender a criança no mercado negro da adoção, a mãe decide juntar-se a eles numa viagem à procura de bons pais em troca de parte do dinheiro. Todavia, o grupo não está sozinho. Soo-jin (Bae Doona) e Lee (Joo-Young Lee) são duas polícias que os seguem, procurando incriminá-los e levá-los à justiça.

As personagens, tão cruas e despidas do véu embelezador a que o cinema nos habitua, são o que de mais tocante e cativante Broker tem. Os três protagonistas vão revelando, aos poucos, o porquê da forma como agem e os mecanismos que têm para se defender. Contudo, sem nunca permitir que isso seja usado para desculpabilizar os vários defeitos que se podem identificar neles. Todos de proveniências muito diferentes, mas com medos, muitas vezes, semelhantes.Apesar de um ritmo linear e sem grandes reviravoltas, as opiniões e sentimentos do espectador enfrentam mudanças exponenciais ao conhecer melhor a história e compreender as verdadeiras emoções e intenções das personagens. Exposto a um conceito de família algo deformado, quem assiste vê a linha entre o certo e o errado ficar cada vez mais turva e de difícil distinção. “Quem está, afinal, a agir mal?” e “Por quem é suposto estar a torcer?” são questões que decerto lhe ocupam a mente e perfeitos exemplos da confusão que o filme levanta.

Ademais, o elenco merece uma importante menção pela sua performance incrível. Com figuras muito familiares ao público coreano, e mesmo ao ocidental, tais como Ji-eun Lee, mais conhecida por IU, e recentes ascensões, tais como Song Kang-ho e Bae Doona, atores de Parasitas e The Silent Sea, respetivamente. Mesmo os membros mais jovens surpreendem muito pelo talento, levando a audiência a ficar totalmente imersa na trama.

A cinematografia não é de particular complexidade. Porém, nem por isso perde o seu valor. Embora os shots sejam simples, isto só cria um maior senso de realidade. Para além disso, o espectador é confrontado com belíssimos cenários, tal como alguns mais decadentes, que parecem quase transportar para a Coreia. De algum modo, cria uma sensação ainda maior de familiarização com as personagens e o seu dia-a-dia.

Um dos contras do filme foi o quão o ritmo mudou assim que o final se começou a aproximar. O passo calmo realista que incorporara até então era uma das suas maiores qualidades. É exatamente por isso que as cenas de término causam alguma confusão pela negativa, fazendo com que pareça apressado e, quase, caótico.

Outro grande ponto negativo que, embora proveniente de diferenças culturais, faz Broker perder grande parte do seu brilho é a misoginia. Temas como o aborto são trazidos à tona de forma algo controversa. Porém não só nisso sentimos um certo menosprezo da mulher, como também no modo como a culpa e os erros ligados aos órfãos são 100% redirecionados para as mães.

Apesar das mais de duas horas de duração, a obra cinematográfica não cansa, prendendo quem assiste a cada segundo. Por entre risos, lágrimas e palpitações, é difícil não se deixar fascinar pela transparência com que temas tão fortes como abandono infantil, prostituição, tráfico humano e, até mesmo, assassinato, são abordados. Definitivamente um filme para ver e refletir.