Estreado a 23 de junho em Portugal, O Telefone Negro marca o regresso de Scott Derrickson ao terror. Baseado no conto de Joe Hill, Fantasmas do Século XX, e com marcas da própria infância, a história, apesar de bem contada e marcante, não deixa de ser algo a que já estamos habituados no cinema.

A premissa toma lugar no norte de Denver, em 1978. Finney Shaw (Mason Thames) de 13 anos é o típico rapaz diferente dos restantes. Tímido, inseguro, vítima de bullying pelos colegas e, também, de um pai bêbado e agressivo. A sua força vem da irmã mais nova, Gwen (Madeleine McGraw), com quem partilha uma relação bonita de se ver. Os dois irmãos resilientes e unidos lutam contra tudo e contra todos.Na pequena cidade do Colorado onde vivem, todo o cuidado é pouco quando dia após dia, os amigos (e não-amigos) são raptados misteriosamente para nunca mais serem vistos. É desconhecido o autor dos crimes, chamam-lhe apenas O Raptor (The Grabber) (Ethan Hawke) que, numa carrinha preta com balões da mesma cor, os leva e, despreocupado, ainda deixa rasto.

Um, dois, três, quatro, cinco, Finney. A sexta criança a ser levada e que tenta lutar pela sua vida num escuro e sufocante quarto. A esfera visual da obra cinematográfica é uma mais-valia para o clima de tensão e ansiedade. A tonalidade usada remete para os thrillers dos anos 90 e o ambiente pesado é cada vez mais sufocante ao longo da narrativa.A chave da longa-metragem não podia deixar de ser o que está explícito no próprio título. Um elemento inovador e muito bem explorado pelo diretor. O telefone negro pendurado na parede suja é a peça sobrenatural, que não podia faltar numa produção de Derrickson, e que estabelece a ligação entre a vida e a morte. É através dele que Finney tem a oportunidade de comunicar com as outras vítimas que o ajudam a defrontar O Raptor.

Assim, o que torna tudo mais interessante e cativante é esta possibilidade de explorar não só a forma como Finney lida com o seu rapto, mas também o lado dos restantes rapazes que estiveram outrora no seu lugar. Cada um com as suas especificidades e maneiras diferentes de tentar sobreviver.

Enquanto isso, Gwen até de olhos fechados procura exaustivamente o irmão. Através de sonhos psíquicos e de preces a Deus, a influencia cristã é outro elemento que se junta ao sobrenatural e que marca as obras de Derrickson, relacionando-as com o “além”.

Inspirado no serial killer John Wayne Gacy, que raptou, torturou e matou cerca de 33 jovens durante as décadas de 1960 e 1970, O Raptor é nada mais nada menos que um psicótico mascarado que se diverte com jogos mentais. Pela extraordinária atuação de Hawke, que faz jus aos óscares a que já foi nomeado, percebe-se que o mau da fita assim o é por traumas passados, especialmente, durante a infância. No entanto, a sua aparição no ecrã não dura o tanto quanto devia, deixando de lado explicações que todos merecíamos.

Por outro lado, a liberdade visual das máscaras usadas pelo vilão torna-se numa já usada jogada, mas ainda assim fascinante de ver. Uma máscara para cada emoção para alguém que é incapaz de demonstrar as suas.

Assim, apesar dos vários elementos que tornam O Telefone Negro algo diferente, a narrativa não deixa de ser, de certa forma, simples e previsível. No entanto, é genial a relação dos acontecimentos com a realidade contemporânea. E se esse era o objetivo de Derrickson, ele alcançou-o com sucesso. O Telefone Negro reflete uma luta travada pelas crianças onde, afinal, não é tão bonito assim ser-se pequeno. Desde o bullying ao rapto infantil, a vida dos mais novos pode ser um verdadeiro filme de terror. O sobrenatural é um acessório porque o mais assustador é a realidade.