Após 112 anos da revolução, revisitamos a cobertura do jornalismo de então.
A 5 de outubro de 1910 assinalava-se aquele que vinha a ser um dos maiores marcos históricos em Portugal. A revolução provocou a queda da monarquia, que daria lugar à Implantação da República. A imprensa acompanhou o acontecimento.
Zara Pinto Coelho, professora na Universidade do Minho, conduziu uma investigação sobre a cobertura jornalística de 1910, na zona de Braga. Em entrevista ao ComUM, conta que a surpreendeu o “número elevado de títulos publicados”. Sobretudo tendo em conta a “elevada taxa de iliteracia do país”, assim como o facto da “maioria dos cidadãos no distrito de Braga ser analfabeta”.
Com base no seu trabalho, a investigadora conclui que o discurso da imprensa funcionou “como fonte e objeto de pesquisa”, mas “não apenas para o estudo da História”. A análise “das mentalidades, da sociedade e da cultura” fruiu também do trabalho jornalístico. Lembrou as palavras do historiador Vasco Pulido Valente, num artigo publicado em 1992 na revista Análise Social: “depois de vinte e cinco anos de investigação intermitente, nada me ensinou tanto sobre a República como a leitura e releitura da imprensa”.
Ainda que com políticas editoriais marcadamente “distintas das atuais”, os traços jornalísticos do início do século XX eram “políticos e combativos”. Zara Pinto Coelho relata que “o acontecimento em si foi pouco ou mesmo quase nada noticiado”. Explica que as primeiras publicações sobre as ações revolucionárias republicanas em Braga surgiram apenas a 9 de outubro. Acrescenta que essas consistiam em “reproduções integrais de peças do jornal A Capital, um título lisboeta” e que se centravam na ação do governo provisório.
A profissional defende que o jornalismo da época assumiu uma posição “ambígua ou mesmo contraditória” no que diz respeito à mudança de regime. “Ao mesmo tempo que afirmaram respeitar a República, como regime, também defenderam a monarquia”, constata. Por outras palavras, esclarece que “o que se critica não é o regime monárquico, mas a ação política dos seus representantes”. Relativamente à República, foi alvo de crítica aquilo que ameaçava a tradição e o conservadorismo: “o anticlericalismo e o programa antirreligioso”.
O pós-revolução ficou marcado, entre outros aspetos, pelas “mudanças no regime de propriedade dos semanários O Combate e o Notícias do Norte”, acredita. O Combate passou de um órgão do Partido Nacionalista para as mãos de um particular e, no caso do Notícias do Norte ocorreu o oposto. Além disso, a professora reconhece a interrupção do O Combate como mais uma consequência, que decorreu em resultado de uma acusação de conspiração.
Zara Pinto Coelho confessa ter ficado “agradavelmente surpreendida” com a cidade dos bispos. Considera que, à época, verificavam-se “alguns sinais de modernidade”, ainda que “escassos e circunscritos a determinadas elites”. Atualmente, julga importante continuar a “compreender a experiência política que fechou portas à monarquia constitucional e que abriu caminho a 40 anos de ditadura em Portugal”.


