Não é de hoje que os interesses económicos subordinam a indústria musical. No entanto, é com a nova ideia de “personalização” e “curadoria” do algoritmo da cultura streaming que a primeira arte perde a sua cor. Um mundo que só defende uma forma de pensamento e de criatividade não pode dizer que quer saber dos seus artistas, ou dizer que sabe o que é a arte.
Pode até haver uma maior eficiência na distribuição musical do que alguma vez existiu, mas isso não significa que haja mais diversidade. Não nos podemos esquecer que as plataformas mainstream como o Youtube, Spotify e mesmo o TikTok atuam sob um motor principal comum: gerar lucro. Então não é de estranhar que, de modo pouco transparente, ajustem a montra dos seus utilizadores, se isso servir os seus interesses financeiros e comerciais.
Vários artistas, compositores e editoras já tentaram denunciar o que está por detrás das recomendações em redes como o Spotify. Desde acordos com grandes produtoras a um claro favoritismo por géneros musicais como o Pop. E, por vezes, normas dentro dos serviços que afetam a produção. O produtor de cultura é obrigado a vergar-se à linguagem das massas ou arrisca perder a sua voz.
Mas o que isto significa? Uma pirâmide de contágio, desde a produção à receção musical – o que leva a um som cada vez mais padronizado. Os artistas escrevem consoante a lógica do algoritmo ou são coagidos pelas editoras, sob a ameaça de perderem o seu contrato. É nostálgico o tempo em que eram os próprios artistas a criar os seus hits e não o contrário.
Este ano, vários artistas levantaram a sua voz perante a crescente pressão das editoras, destacando-se alguns nomes conhecidos como Charli XCX, Charlie Puth e Halsey. Recentemente, a cantora veio denunciar a sua editora, que a proibiu de lançar o seu single até conseguir criar “um momento viral” no TikTok. Se uma cantora com oito anos de carreira, que vendeu mais de 165 milhões de registos musicais e colaborou com nomes como Justin Bieber, não consegue lançar as suas composições, o que fará um artista local que não tem recursos para seguir todas as exigências?
No entanto, não é tudo. Num protesto que reuniu, em março, mais de 100 músicos contra as prioridades e os métodos de pagamento no Spotify, a compositora Kennedi Lykken revelou a dura realidade de viver num sistema em que os cliques ditam o número que saí no cheque. Ganhou um Grammy, escreveu para nomes como Dua Lipa, Ariana Grande e Britney Spears, mas agora não consegue viver da música. Vários dos seus colegas chegam ao ponto de tirar fotos no Onlyfans para sobreviver. Esta torna-se a verdade sufocante de muitos. “O meu último cheque foi $432 (440 euros). Eu não sou ingrata, mas não consigo viver com isso. Honestamente, eu gostava mais de trabalhar num restaurante da minha cidade natal com 1000 pessoas, do que trabalhar aqui de graça”, desabafou a compositora.
Também a banda Rock Eve 6 se pronunciou no Twitter: “a banda chega perto de um milhão de streams mensais no Spotify. O Spotify paga 0,003 centavos por stream. E 100% disso vai para a nossa antiga gravadora Sony que é proprietária parcial do Spotify.”
A realidade é consensual neste aspeto. O rácio é injusto e os holofotes não chegam para todos. A maioria dos artistas locais não tem força nem recursos para lutar contra a exploração existente nestes meios. Nem apoio mediático e jurídico para provar a falta de transparência das empresas tecnológicas.
Com isto, não quero dizer que a música não deve procurar ser lucrativa ou afirmar que o salário deve ser igual para todos. Da distinção, vem o mérito. Contudo, quando não está nas mãos dos ouvintes decidir o que os artistas recebem, mas sim nos interesses daqueles que seguram o poder, o problema torna-se maior. As disparidades amplificam-se, o desemprego aumenta e a escolha deixa de existir. Isto não pode, nem deve acontecer num espaço democrático.
Num tema por si só complexo, a minha opinião não tem mais do que um objetivo – consciencializar o público. Estudos como “ Artificial intelligence, music recommendation, and the curation of culture” (2021), abordam este tema de uma forma mais aprofundada. Deixo apenas algumas soluções apresentadas pelos autores, com as quais concordo. Primeiro, como consumidores temos de sensibilizar as empresas de inteligência artificial para algoritmos mais conscientes, exigindo maior transparência e diversidade. Espaços padronizados não são espaços democráticos. Sejamos, simplesmente, pessoas atentas e responsáveis. Só assim podemos combater a desinformação, proteger os nossos artistas e preservar a nossa cultura.


