Conhecido pela sua reclusão e pela escassez de lançamentos durante a sua longa carreira, D’Angelo é um dos artistas mais míticos das últimas décadas, tanto que Donald Glover dedicou um recente episódio da sua série Atlanta ao mito do cantor. É fácil perceber a razão para este estatuto ouvindo a sua música, especialmente a joia da coroa da sua discografia, Voodoo.

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O álbum foi produzido – em simultâneo com outros clássicos como Mama’s Gun, de Erykah Badu, e Like Water for Chocolate, de Common – pelo lendário supergrupo Soulquarians, do qual D’Angelo foi fundador, juntamente com Questlove, James Poyser e J Dilla. A influência de Dilla, especialmente da percussão irregular tão característica do produtor de Detroit, é bastante sentida em Voodoo, sendo um dos elementos que catapulta faixas como “Devil’s Pie” para um nível de transcendência sonora poucas vezes atingido na história da música.

O disco é comummente descrito como “groove-based” e é difícil não ser consumido pelos ritmos infinitos da música enquanto a ouvimos. “Left And Right” é a canção mais convencional do mesmo em termos rítmicos. D’Angelo apropria-se da sonoridade clássica do hip-hop e, com a ajuda de dois versos potentes de Redman e Method Man, entrega uma versão idiossincrática desse estilo – com as outras canções a serem bastante mais aventureiras e inventivas, sem nunca perderem a envolvência.

Para além disso, o resto do álbum é também mais eclético em termos de influências e toma ainda mais liberdades relativamente à sua estrutura. As canções comportam-se quase como seres vivos, imprevisíveis na direção que seguem, e todas nos levam em jornadas enriquecedoras por ambientes ricos em textura, cor e energia. A longa duração de cada faixa é essencial para isto, dando espaço a todos os elementos e ideias musicais para florescer ao seu máximo potencial, sempre organicamente. É notável a forma como nada soa fora do sítio em músicas que parecem desprezar todas as regras de estrutura típicas do meio .”Spanish Joint” é talvez o maior exemplo disto no disco. Tal como é notável o quão radical D’Angelo consegue ser sem alienar o grande público da sua arte – Voodoo foi número 1 e ganhou dois Grammys.

Outra característica da sonoridade de Voodoo é o uso agressivo de gravação multicanal na voz de D’Angelo, mais um exemplo do privilégio concedido à textura e à riqueza sonora, face a elementos mais tradicionais. Neste caso a clareza das palavras cantadas.

Ainda assim, não se pode descurar a destreza lírica do artista, especialmente quando assume um pendor mais concetual, como em “Devil’s Pie”, onde crítica ao materialismo no hip-hop – ou Africa – a letra mais bonita do álbum, inicialmente idealizada como uma dedicatória ao seu filho, mas que rapidamente associou a essa intenção um caráter holístico e reflexões sobre a sua história e raízes.

Finalmente, é difícil escrever sobre um álbum como este, onde as composições apelam tanto aos sentidos e têm, acima de tudo, de ser experienciadas. Por mais eloquente que se seja, é impossível traduzir em palavras a forma como o baixo de Raphael Saadiq nos conduz até ao delírio climático de Untitled (How Does It Feel), a penúltima faixa do projeto, e a euforia que esse delírio emana.

No entanto, o que mais impressiona ao ouvir Voodoo não são esses momentos de êxtase ou a perícia vocal de D’Angelo, mas sim o seu controlo sobre tudo o que está na música – é difícil acreditar na simbiose perfeita de complexidade e macieza, de mestria e modéstia, de obsessão pelo detalhe e leveza. Um álbum cheio de história e de respeito por ela, mas sempre com os olhos no futuro e com coragem para traçar novos caminhos. Pena que muito poucos tenham procurado continuar esta jornada, e que nenhum deles tenha demonstrado o talento.