Blonde, a tão aguardada biografia de Marilyn Monroe chegou à plataforma Netflix no dia 16 de setembro. Tal como a vida da protagonista, também a obra cinematográfica veio envolta de polémica.

O realizador Andrew Dominik esteve no destaque de todo o drama, até antes do lançamento do filme. Numa entrevista à Sight&Sound, o realizador afirmou que não conhecia grande parte da filmografia da atriz americana, e, acrescentou que filmes como Gentlemen Prefer Blondes (1953) são sobre “prostitutas bem vestidas”.

O filme confronta-nos com várias histórias sem qualquer evidência factual, como uma cena de sexo a três com Charles Chaplin Jr. e Edward G. Robinson, ou uma cena de violação que posteriormente leva um aborto. O realizador australiano explica que o filme é baseado no romance Blonde de Joyce Carol Oates. Esta obra, apesar de ser inspirada pela vida do ícone da cultura pop, é de caráter ficcional. Há uma assumida despreocupação com a veracidade dos factos, e Andrew Dominik inclusive assume: “estou apenas interessado nas imagens”.

No aspeto visual, foi onde o realizador focou realmente as suas atenções. Face a um filme tão complexo, seria falacioso dividi-lo em aspetos positivos e negativos. No entanto, a estética do filme é um ponto de destaque. Durante toda longa-metragem, há um constante de desconforto que nos acompanha e que é equilibrado com imagens agradáveis que nos permitem ver as cenas com deleite. A utilização da intemporal estética a preto e branco das décadas de 50 e 60, intercalada com planos inovadores, tornam a obra muito mais rica a nível visual.

A escolha da atriz para o papel principal também gerou muitas dúvidas. No entanto, após o lançamento do filme o tópico deixou de ser discussão. Ana de Armas abraçou um papel muito desafiante, que envolveu uma preparação muito longa, e esteve à altura- ou até poderá ter superado algumas- expetativas.

É visível face à análise do filme que em vários aspetos técnicos, nomeadamente na atuação do elenco e na representação visual, a obra é cuidadosamente trabalhada. Porém, há uma falta de intenção na transmissão de uma mensagem. Muitos críticos apontam a uma falta de respeito para com a memória da estrela americana.

Blonde mostra-nos uma representação nua e cruel de como os vários elementos da vida da atriz a trataram. As cicatrizes físicas e emocionais que sofreu na infância estão apresentadas de forma explícita; a forma como os produtores de Hollywood e o público a transformaram num objeto é dura e desconfortável de se ver; os seus relacionamentos abusivos, os abortos, e a sua morte não são tabus no filme.

Apesar desta exposição que parece apontar o dedo a uma sociedade fútil, machista e hipócrita, existe uma necessidade não preenchida de vermos outro lado da sex symbol americana. Se, por um lado, o filme parece denunciar a objetificação da mulher, por outro falha em demonstrar por que razão Marilyn Monroe foi mais do que uma mulher bonita. A história acaba da mesma forma de sempre, em que a mulher acaba por ficar sem resposta face ao patriarcado e da sua memória só é lembrado seu corpo e o seu rosto.  Não existe qualquer referência à criação da sua própria empresa de produção cinematográfica, de forma a obter mais independência, ou à sua posição político contra o comunismo que se espalhava por Hollywood nas décadas de 50 e 60.

No filme, há também uma visão discutível quanto a um aborto de Marilyn Monroe. Na cena, Norma Jeane (nome de nascença da atriz) decide abortar. Nesse momento de decisão, o embrião que está na barriga começa a falar na mente da protagonista, o que emite um sentimento de culpa face à interrupção voluntária da gravidez. Esta cena pode ser interpretada como uma tendência anti-aborto, o que pode não ser positivo para a imagem da estrela. A cena é ainda mais questionável quando se trata de um caso de ficção, para o qual não há quaisquer evidências.

A obra apresenta bastantes divergências na sua avaliação, no entanto, e apesar de ter falhas em termos de respeito à imagem de Marilyn Monroe, pode ser valorizada pois rompe o panorama dos filmes atuais. Foi uma surpresa geral a forma como o filme foi executado, a inovação e a imprudência valorizam uma obra que nos deixa a sensação de que ainda podia ter dado mais.