Westside Gunn é um dos artistas mais prolíficos da última década – desde 2012, lançou mais de duas dezenas de projetos – um estatuto que alcançou sem nunca comprometer em termos de qualidade. 10, o último projeto da série Hitler Wears Hermes, é mais um exemplo disso, sendo um dos melhores álbuns de hip-hop do ano e uma conclusão mais do que satisfatória deste período da carreira do rapper.

HYPEBEAST

Depois de no último ano nos ter apresentado os volumes 8 e 9 (este lançado como Hitler Wears Hermes 8: Side B), nenhum fã de Gunn esperava 10 tão rápido, especialmente com os repetidos teasers feitos pelo artista de Buffalo a outro projeto, Michelle Records. Ainda assim, e dada a ética de trabalho de Gunn, já nada surpreende no que toca a volume de lançamentos.

10 tinha a difícil tarefa de suceder ao projeto mais aclamado da série, pelo que as expetativas eram altas. Mais altas ficaram quando se percebeu que seria o último projeto da saga e quando surgiram os primeiros rumores de colaboradores no álbum. Este é, sem dúvida alguma, o projeto mais rico nesse aspeto do artista, reconhecido pelo seu uso abundante de features e por assumir um papel mais próximo de curador do que de rapper.

Para além dos colaboradores habituais Stove God Cooks, Rome Streetz, Keisha Plum, Benny the Butcher e Conway, Gunn recruta nomes como A$AP Rocky, Busta Rhymes, Raekwon, Ghostface Killah, Run the Jewels e Black Star para as 12 faixas que compõe o projeto – já para não falar da produção, onde temos contribuições de RZA, Alchemist, Pete Rock, Conductor Williams e até de um dos filhos de Gunn.

Olhando para o alinhamento do álbum, facilmente percebemos a faceta de curador que Westside Gunn tanto gosta de assumir: o projeto flui sublimemente durante os 50 minutos, uma qualidade que preserva mesmo sendo um dos mais variados do rapper. 10 abre com uma introdução de AA Rashid – mais um dos trademarks do artista -, onde somos informados do calibre daquilo que ouvimos em seguida. Rapidamente nos encontramos envolvidos num instrumental trap, com DJ Drama a guiar-nos até ao primeiro verso do projeto. A produção é atmosférica, mas minimalista, e as atitudes de Gunn e Doe Boy complementam-no perfeitamente – resumindo, FlyGod Jr é um banger e prova da versatilidade de Gunn.

Mesmo já estando num nível bastante elevado, 10 só melhora a partir daí: Super Kick Party é clássico Westside Gunn, com o rapper a dominar um instrumental sujo com rimas luxuriosas, uma dicotomia sempre presente no seu trabalho. Depois disso, Shootouts in Soho funciona bastante bem enquanto montra das habilidades de Rocky, para além de ter um dos momentos mais memoráveis do álbum, quando Stove God Cooks abre o seu verso dizendo “I can’t answer the phone right now, I’m cooking dope”.

A faixa seguinte, Peppas, é imediatamente um destaque do ano, com a sua combinação de rimas significativas de Yasiin Bey e, especialmente, Talib Kweli e um instrumental brilhante de Conductor. Nigo Louis é um tesouro daqueles que só Westside Gunn consegue proporcionar, com uma aparição da sua filha que só pode ser descrita como ostentação de bom gosto e as linhas mais memoráveis do álbum: “You ever got kicked out of school for being too fly?/I didn’t think so, and I’m only in the fourth grade/And you should’ve seen what the principal was driving, hilarious”.

Depois deste ponto, e apesar do álbum nunca tirar o pé do acelerador, já ouvimos a melhor sequência de faixas do projeto. Os maiores destaques na segunda metade da tracklist são Science Class, onde Gunn reúne três lendas do hip-hop (Busta, Raekwon e Ghostface Killah) e todos entregam ao nível esperado.

Mac Don’t Stop, que se destacaria só pelo instrumental envolvente e ondulado do lendário Pete Rock, mas tem também uma das performances mais impenitentes de Gunn em todo o álbum, com barras como “Marni pullover, cotton candy fur/If you want his brains out his head just say the word”; e Red Death, um posse cut com sete rappers e um instrumental tenebroso, cortesia de Alchemist, onde toda a gente está ao seu melhor nível e entrega versos impactantes.

Resumindo, 10 tem todos os aspetos característicos de um álbum de Westside Gunn – produção fabulosa e memorável, rimas impactantes, momentos icónicos, colaborações e ad-libs com fartura -, juntando a isso mais variedade e uma atitude mais leve, quase lúdica, típica de uma victory lap de alguém que sabe que atingiu o topo no seu ofício. Resta-nos esperar – provavelmente não muito tempo – por Michelle Records e, entretanto, apreciar 10 – e toda a discografia de Gunn – como aquilo que é: um vinho requintado, extremamente caro, mas que vale cada cêntimo nele investido.