Composta por António Variações e interpretada por Marisa Liz, “Guerra Nuclear” anda a provocar lágrimas naqueles que a ouvem. O tema, inédito do autor e cantor, foi criado à cerca de 40 anos mas a sua mensagem mantém-se bastante atual.

Rádio Arena

Foi dentro de uma caixa de sapatos que foi encontrada uma cassete com a música “Guerra Nuclear”. A família de António Variações e os seus publishers, Rossio Music, decidiram divulgar este tema principalmente pela mensagem presente.

Com a situação bélica atual, a letra do single marcou o público de uma forma mais forte do que aquilo que já era expectável. É entre versos : “A loucura está a vencer o juízo/O ódio, a amizade, e “Estão-se a despir de toda a humanidade” que a música se inicia, deixando relativamente presente o tópico da letra.

Já em relação ao refrão, este é ainda mais explícito (“Querem fazer a guerra nuclear/Vou protestar” e “Que culpa tenho eu se eles se querem suicidar”). No entanto, não é por isso que a obra perde a elegância característica de Variações. Não esteve realmente com rodeios, como se pode observar na falta de metáforas presentes na letra, mas talvez fosse essencial esta simplicidade para partilhar uma mensagem com esta importância.

Outros artistas contemporâneos de Variações, como Lena D’Água com o tema “Nuclear, Não Obrigado”, preocuparam-se com este assunto, deixando-o escrito em música para a posteridade. Foi também a propósito da Guerra Fria, numa das épocas de maior tensão, que o cantor natural de Amares escreveu o tema “Guerra Nuclear”

Acima de tudo, sente-se a frustração do autor quanto ao caos de uma guerra nuclear. Infelizmente, esta gravação, provavelmente do final de 1983, continua a fazer bastante sentido, aplicando-se à guerra Rússia-Ucrânia. Isto demonstra a sensibilidade e o grande artista que era António Variações.

Depois de temas inéditos do autor terem sido trazidos à superfície por cantores como Lena D’Água ou Humanos, desta vez é Marisa Liz a contemplada. A ex-vocalista da banda Amor Electro junta realmente tudo aquilo que é necessário para representar esta mensagem e o que é um dos maiores cantores portugueses de sempre. A mesma já referiu que a responsabilidade que tem em mãos é verdadeiramente importante para si, tanto a nível pessoal como a nível profissional, não esquecendo que se trata da estreia da cantora a solo.

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No single pode ainda ouvir-se a voz de António Variações, falecido à 38 anos, foi um cantor que revolucionou a música pop portuguesa. Retirado da gravação original da cassete, este excerto dá um maior significado e peso à obra, deixando mais uma pegada da personalidade do cantor na música.

Em relação ao videoclip, este pretende vincar o facto da cantora ser apenas uma mensageira daquilo que Variações queria transmitir. Para o demonstrar, constrói-se um mural de frases e palavras que culminam na imagem do autor. No videoclipe Marisa Liz usou ainda uma boina preta e um par de brincos que pertenciam a António Variações, tornando-o ainda mais presente nesta que é a sua obra. Este videoclip foi dirigido por João Maia, realizador do filme biográfico do cantor minhoto, “Variações”.

Todo o reportório de Variações tem um caráter muito atual. Desde canções como “O corpo é que paga” e “É P’rá Amanhã” do álbum “Anjo da Guarda” até “Perdi a memória” e “Canção de engate” do álbum “Dar & Receber”, o cantor escreveu letras muito à frente do seu tempo. Cada música sua que ouvimos pela primeira vez é sentida como um marco de inovação. Esta não foi realmente uma exceção. Trata-se simultaneamente de uma música de protesto e de uma música que apela à paz. A letra é de Variações, a voz de Mariza, mas tal como a cantora admite, a “luta é de todos”.

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