Pinóquio de Guillermo del Toro, lançado em novembro deste ano, é a mais nova adaptação do romance clássico de Carlo Collodi, As Aventuras de Pinóquio. Tendo levado uma década de trabalho para finalmente estrear nos cinemas, este novo Pinóquio foi o sonho realizado do seu realizador Guillermo del Toro, onde é palpável a importância que esta história teve na vida do mesmo. Sendo uma dedicatória para os seus pais, o realizador admite que “a sua versão da história é o reflexo da sua terror-filled infância”.

Com um toque mais maduro e uma narrativa mais adulta, esta adaptação de Pinóquio leva-nos num debruçar tenebroso, situado na Itália, cenário da primeira grande guerra, e num outro momento, no estabelecimento do governo Mussolini.

Obriga o telespectador a imergir nos problemas pessoais que as personagens Geppeto e Pinóquio têm de enfrentar, assim como o desenvolvimento da relação entre eles, repleta de dor e sofrimento, mas também alegrias que nos enche o coração. O filme tem uma premissa ambiciosa, usando este conto infantil a seu favor, toca em temas como o luto e a rejeição do diferente, assim como o verdadeiro sentido do amor e vida. Questiona ainda as vantagens do ser imortal.

O tema da perda e do luto de uma pessoa que era muito querida para Geppeto demostra uma dor descomunal que o leva ao isolamento da comunidade onde vivia, assim como a recorrer ao álcool como um hábito. Esta representação crua da dor é o que leva Geppeto a trazer o seu filho de volta com as suas próprias mãos. Num ato de desespero, o personagem constrói um menino de madeira, mal acabado, com parafusos mal pregados, contra todo o seu perfecionismo passado, reflexo da sua agonia de estar completamente sozinho.

Tal como na história clássica, o Pinóquio ganha vida, mas comparativamente com o filho de Geppeto, Carlo, o menino de madeira é muito desastrado e presunçoso, admirado com tudo o que é novo que existe a sua volta. É com a apresentação da personalidade inicial de Pinóquio que o telespectador se envolve na jornada de amadurecimento deste menino que ainda não o é.

“Geppeto rezou por um milagre, e quando o milagre aconteceu ele ficou infeliz. Ele não teve o que queria”, disse o realizador em entrevista. Guillermo del Toro leva este sentimento de ostracização e rejeição a que o Pinóquio foi sujeito do clássico livro que inspirou todas as adaptações de As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, mas de maneira mais fidedigna. A criança que não é amada e que não é querida, porque ela não é o que o pai espera, porque ela não é o que o pai tinha sonhado, e por isso o Pinóquio é tratado como algo descartável.

A jornada de amadurecimento vai para além do crescimento do Pinóquio no seu objetivo de ser tornar num rapaz de verdade, mas também do próprio Geppeto. Aprendeu que na imperfeição também há qualidades e que o amor por uma pessoa perdida não o impedia de seguir a vida e voltar a amar novamente. O Geppeto finalmente aceita o Pinóquio, não como uma mera substituição do seu filho perdido, mas sim pelo verdadeiro filho que o Pinóquio se tornou para ele.A obediência e o respeito foi um dos primeiros avisos que Pinóquio recebeu desde a sua criação, sendo relembrado constantemente ao longo do filme sobre como ele devia agir seguindo sempre as regras. É engraçado reconhecer esta metáfora, de um rapaz que é uma marioneta na sua estrutura física, mas nunca se deixou limitar pelo seu ambiente, já as pessoas que o avisam constantemente na história são aquelas que são verdadeiramente regidas por cordinhas. Como o próprio Mussolini diz no filme, “eu adoro marionetas”.

O próprio design dos personagens fala muito sobre a própria história. Vemos um Pinóquio completamente distinto ao que estamos habituados, nada glamorizado e longe de se parecer com um menino de verdade, apenas fruto da triste raiva do seu pai. Com este design o diretor deixa presente o seu gosto pela beleza do monstro e daquele que é inaceitável, figura esta que não muda durante todo o filme, uma vez que o Pinóquio fisicamente nunca vai poder ser um rapaz de verdade, mas o seu espírito sempre o foi.

O stopmotion é uma arte que é muito intrigante, e por isso agrega um valor ainda maior ao filme. As pessoas têm a capacidade de imaginar o enorme trabalho por detrás de cada movimento dos personagens e das lindas paisagens. É tangível o esforço dedicado na realização deste filme, onde em cada segundo, o boneco teria de ser movido 24 vezes. Para que fosse possível o filme ser lançado ainda este ano, tiveram de trabalhar em simultâneo cerca de 60 equipas, 60 câmaras de filmagem e 60 câmaras de som diariamente, o que demonstra a organização e uma coordenação extraordinária.

Em jeito de conclusão, para além de ser um show de paisagens estonteantes e personagens muito queridas, Pinóquio de Guillermo del Toro é sobretudo uma obra-prima de aprendizagem e crescimento. Realça como o poder do amor vai além do sofrimento e do próprio imortal.