São incontáveis a quantidade de vezes que conhecemos alguém que nos marca de alguma forma, num contexto passageiro, e nunca mais a voltamos a ver. Antes do Amanhecer é o culminar e a representação dos breves momentos na vida de cada um de nós. A longa-metragem, bastante aclamada pela crítica da época, foi dirigida por Richard Linklater e escrita pelo mesmo e por Kim Krizan. Chegou aos ecrãs dos portugueses a 12 de maio de 1995, e são nomes como Ethan Hawke e Julie Delpy que integram o elenco principal.

Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) são dois jovens-adultos, numa primeira instância desconhecidos, e que se encontram num comboio com destino a Paris. Jesse, que regressaria aos Estados Unidos no dia seguinte, convence Céline, de nacionalidade francesa, e que tinha acabado de visitar a sua avó, a sair em Viena e passar uma noite na encantadora cidade, antes que amanheça. Aquilo que poderia resultar num derradeiro e perigoso desastre torna-se numa verdadeira história de amor indiscutível, ainda que passageira.

A obra cinematográfica de Linklater e Krizan passa-se emapenas numa noite, sendo, por isso, o espaço de tempo bastante reduzido. No entanto, não limita as singularidades e especificidades do filme, nem tanto a própria linha condutora da história.

É a partir desta premissa que a narrativa se desenvolve, de forma simples, direta e sem conflitos, através do diálogo contínuo que se estabelece entre os dois personagens principais. Os temas abordados ao longo das suas profundas conversas variam desde assuntos superficiais até conclusões filosóficas, dúvidas existenciais, e questões que invadem o pensamento de ambos, como forma de auto-revelação, e mesmo de autoconhecimento.

A conexão dos dois protagonistas é evolutiva, e algo paradoxal. Podemos caracterizá-la tanto como simples como complexa devido à autenticidade do discurso, ao prestígio dos detalhes na história e por outro lado, às dúvidas e incertezas existentes. Não é, de todo, errado assumirmos que a obra artística trabalha com os mínimos detalhes. A comunicação corporal e os olhares e gestos sustentam essa mesma ideia ao longo de todo o filme, enriquecendo os diálogos verbais, quando necessário.

Antes do Amanhecer é um retrato, não apenas de relações amorosas, mas pessoais, e de que forma são explorados estes sentimentos e reações, com base nas intenções de cada um. A saudade e a expectativa operam como sentimentos de suporte no amor entre Jesse e Céline, despertando o desejo de cada um deles.

A própria cidade austríaca atua como protagonista da longa-metragem, com as ruas e os seus harmoniosos espaços que oferecem o cenário à história, e que, mesmo ele se enquadra no amor e simplicidade do casal. A ausência dos residentes e o silêncio que inunda a cidade são fatores determinantes, e caracterizantes, de toda esta natureza, e do romantismo juvenil.

Por se passar apenas num dado curto espaço de tempo, os figurinos dos personagens são os mesmos durante toda a narrativa. Remete assim, mais uma vez, para a simplicidade e estética do filme, e a efemeridade do episódio. Já a trilha sonora confere o estilo clássico e verosímil à obra, tendo faixas instrumentais compostas por Fred Frith, a própria Julie Delpy e Graham Reynolds, que acompanham grande parte dos momentos entre os jovens-adultos.

A obra cinematográfica oferece-nos não só uma genuína, apesar de breve, história de amor numa arrebatadora cidade, mas um conjunto de sentimentos e emoções que nos são despertados através desta despretensão. Algo real, humano, e com sentido, abordando o peso que determinados momentos e relações têm nas pessoas. É o culminar da simplicidade.