Um conto de trauma geracional, dor feminina e toxicidade, Mal Viver estreou em maio em Portugal. João Canijo desmonta sororidade e maternidade através de uma complexa lente de relações familiares, trabalho que lhe valeu um Lobo de Prata.

A longa começa e somos apresentados a um hotel no litoral, de paredes assentes em memórias perniciosas e dores latentes. Três gerações de mulheres, cada uma cega pelo seu próprio sofrimento, acidentalmente envenenando-se mutuamente, gerem-no. É, porém, a chegada de Salomé (Madalena Almeida), a única neta da proprietária, que promete abalar este frágil ecossistema, tão estável quanto um castelo de cartas defronte de uma janela aberta.

No hotel, esta lida com uma mãe depressiva neurótica, Piedade (Anabela Moreira), uma tia presa a uma imaturidade perpétua, Raquel (Cleia Almeida), uma avó inconformada com a falta de ambição das filhas, Sara (Rita Blanco) e a sua sobrinha, Ângela (Vera Barreto), que se sente acorrentada aos dramas familiares. Lidando com a recente morte do pai e buscando senso na indiferença que sente pela parte da mãe, Salomé vê-se emaranhada numa rede de confusões que muito a antecedem, mas que, para sempre, a parecem perseguir.

É em Piedade, porém, que mais nos revemos. Esta vai-se arrastando e, apesar do seu humor quase estático, os seus gritos de desespero silenciosos ecoam dentro de nós, amplificados pelo ignorar das restantes personagens. Quando, finalmente, a vemos chorar e clamar o desconsolo da sensação de ser incapaz de amar, o coração aperta, queremos estender-lhe a mão. Há, efetivamente, uma mão que se ergue perante si, mas não é para a ajudar a levantar.

A ironia da cadela chamada Alma que Piedade passa o filme a procurar, representa esse mesmo desalento. Esta parece ser uma caricatura do cerne da dona, que percorre, desorientada, os corredores daquele local vezes sem conta, questionando todos sobre o paradeiro de “Alminha”, tentando protegê-la de tudo e vendo nela tudo o que de mais precioso tem. Mais do que isso, todavia, o hotel claustrofóbico ergue-se como uma prisão para as doridas almas daquelas mulheres que parecem condenadas a habitar, de forma mais ou menos literal, entre as suas paredes.

João Canijo, tal como já habituou com os seus trabalhos anteriores, deleita-nos com diálogos de uma naturalidade muito própria. Mesmo na mais aparentemente trivial das conversas, acabamos por nos perder no quão cruas e reais soam as personagens. O humor que introduz na longa-metragem, por vezes algo amargo, vai ainda distraindo-nos, mesmo que apenas brevemente, dos dilemas das protagonistas, ainda que muitas vezes o riso do espectador se veja seguido de uma certa culpa pelo quão insensível parece ao sofrimento alheio.

Tal como o outro filme que serve de seu complemento, Viver Mal, o cineasta define o tema da obra como “a ansiedade de ser mãe”. Como um cordão umbilical que nunca se chega a cortar, as relações mãe-filha retratadas mostram uma herança de veneno através de um passar de angústia crescente, de geração em geração. Mãe que magoa filha que procede a magoar a sua também, numa batalha constante de tentar perceber como amar sem nunca lhes ser ensinado.

A temática da saúde mental traz ainda um novo trago interessante ao variado perfil gustativo de Mal Viver. Piedade encontra-se perdida numa bruma de confusão sentimental, incompreendida e fragilizada, sendo diagnosticada de mil maneiras diferentes pelas outras personagens que a veem como louca.

Digno de menção honrosa é, ademais, o desempenho do elenco, quase exclusivamente composto por mulheres, que dá vida a esta história. Anabela Moreira e Rita Blanco, em particular, destacam-se com momento após momento de interpretações estrondosas que asseguram abalar quem assiste.

Típico de cinema europeu, Mal Viver tem um ritmo lento e embalador. O espectador deve, contudo, estar grato por este, pois permite que se observe e absorva a beleza de cada cena que parece minuciosamente desenhada por Leonor Teles. Causador de uma ansiedade intensa e um arrepiar que se mantém mesmo após sair da sala de cinema, Mal Viver marca por mais uma revelação do potencial da sétima arte em Portugal.