Reality chegou à plataforma HBO films a 29 de maio de 2023, no entanto foi a 23 de fevereiro que estreou, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde foi bastante aclamado pela critica. A longa realizada por Tina Satter, conta com a interpretação de Sidney Sweeney, Josh Hamilton e Marchánt Davis.

Reality Winners, personagem principal que dá nome à obra cinematográfica, é uma veterana da Força Aérea dos Estados Unidos e ex-tradutora da NSA (Agência de Segurança Nacional). A história, baseada em eventos reais, começa na parte exterior da casa da protagonista, onde é surpreendida por dois agentes do FBI que têm em sua posse um mandado de busca. É então neste espaço – casa de Reality – que decorre toda a ação. É entre as paredes da casa que nos é dado a conhecer, de forma lenta e gradual, o propósito dos agentes.

O roteiro de Satter é baseado na transcrição do interrogatório real que o FBI fez a Winners devido à suspeita de divulgação não autorizada de informações do governo, após esta vazar um relatório de inteligência sobre a interferência russa nas eleições de 2016 dos Estados Unidos. Antes desta adaptação para o cinema, a realizadora encenou a peça Is This A Room, baseando-se, de igual forma, no interrogatório realizado. Assim, a narrativa desenvolve-se numa cena só, num curto espaço de tempo, enquanto um cronómetro, no canto da tela, revela quanto tempo de gravação conta o interrogatório.

Esta aproximação ao caso verídico permitiu a criação de uma história fiel, mais real e crua, que chega ao espectador através das gravações que são apresentadas e pelos relatórios que surgem na tela a cada dez minutos, sensivelmente. Assim, preocupada com os detalhes, Stanner confere à obra uma precisão sublime daquilo que foi vivido naquele quarto, desde os silêncios aos risos nervosos, até as hesitações e repetições na fala, tudo isso foi mantido.

Para além do texto, a realizadora mostra, também, uma preocupação com a confinidade das imagens. Desta forma, somos presenteados com imagens da real veterana da força aérea que surgem intercaladas com as cenas de Sidney Sweeney, mostrando assim as semelhanças entre ambas, na roupa utilizada até ao cabelo preso da mesma maneira.

Tina Satter fez, então, um trabalho exuberante no que diz respeito à fidelidade com que o filme foi construído, contudo o ritmo monótono da longa compromete atenção do público. A forma excessiva com que a realizadora se agarra à ata policial priva a imaginação, o levantar de dúvidas e a possibilidade de se construir teorias próprias – é tudo dado ao espectador de forma quase automática.

Deste modo, um dos únicos motivos que prendem os olhos do espectador ao ecrã, durante os vagarosos 85 minutos em que se dá a ação, é atuação brilhante e cuidadosa de Sidney. A atriz de 25 anos traz para a personagem a fragilidade e instabilidade necessárias, que caracterizam uma jovem mulher num momento delicado como aquele que é retratado, o que confere a todo o momento do interrogatório o dramatismo imperativo. Por outro lado, oferece a Winners a firmeza e valentia da mulher que deu o corpo ao manifesto por aquilo que acreditava ser o melhor para o seu país.

Nos momentos de fraqueza e pressão que a personagem feminina enfrenta, insere-se eco no som, desfoque nos rostos e na profundidade da imagem e distorções na captação das conversas, o que, culminando, resulta numa maior intensificação daquilo que é sentido por parte da jovem adulta. Este podia ser um ponto positivo a salientar, todavia as modificações efetuadas na imagem e no som são formas de perturbar aquilo que é sentido quando poderia ser utilizado um diálogo próprio e mais lírico, afastado das palavras que constam no relatório, para esse efeito.

Desta forma, em muitas partes, esta obra cinematográfica parece que se desvia de uma criação para algo documental e mecânico. Este é um filme assente no desconcerto e agitação da personagem principal, em contraste com a uniformidade e calma com que se desenrola a ação.