Do macacão à capotilha, quem passa por lá partilha a mesma vontade: levar o Minho mais além. Fundada em 2012, a Tun’ao Minho é o ecoar das raízes minhotas. Nasceu da ideia de nove estudantes que desejavam ver nas tunas femininas algo maior: mais vida, mais energia e, acima de tudo, mais Minho.

De Braga para o mundo, pintam as tradições minhotas de bordô e preto. Com inspiração no folclore português, a hierarquia começa nas lavradeiras, que iniciam o seu percurso trajadas de macacão. O esforço e a dedicação à tuna são reconhecidos com o lenço dos namorados, que mais tarde atinge o apogeu quando veem o seu nome na capotilha – peça que colocam no traje sob os ombros. Quanto às nove fundadoras, estas são designadas Mordomas, tendo a particularidade de ostentar capotilhas bordadas à mão.

Aproximando-se as nove da noite, todos os caminhos vão ter à ARCUM – Associação Recreativa e Cultural da Universidade do Minho. Ouve-se o afinar dos bandolins, das guitarras, dos cavaquinhos e aquecem-se as vozes. As caloiras ultimam as preparações para o ensaio, que junta todos os elementos quando chega a ensaiadora.

“Ensaiar com um propósito”

Savana, nome de tuna para Maria Maciel, representa uma figura de orientação para o grupo. O background no mundo do teatro trouxe aos ensaios “mais dinâmica”, que se traduziu numa performance mais confiante em palco. “A nossa tuna tinha medo. Soávamos muito bem nos ensaios, mas chegávamos às atuações e era assustador. Não tínhamos presença em palco e não nos divertíamos”, compara. O equilíbrio entre o convívio e o trabalho é o ponto principal da preparação. “Convém estar a ensaiar com um propósito. Temos um festival e precisamos de ser boas, mas a base é a mesma: juntamo-nos todas, porque gostamos de tocar”, realça.

Além de coordenar os ensaios, “o meu papel é perceber em que direção quero que a tuna vá em termos musicais. As ideias que eu tenho são só ideias. Aquilo que me rodeia é que me dá a entender para onde é que devo ir: que músicas devem ser adaptadas e o que nos falta”, explica. Entre épocas mais stressantes, assinaladas por festivais – “o que nos marca enquanto tuna” -, e outras mais calmas, mantém-se o espírito de entreajuda. Juntas, “é preciso pensar como vamos crescer e ajudar as pessoas mais novas a tocar instrumentos e a integrarem-se”.

Lidar com pessoas foi das principais competências que adquiriu na tuna. “Enquanto ensaiadora, tenho de gerir a personalidade de cada uma, até porque toda a gente é diferente. É importante ter a sensibilidade de saber como falar para as pessoas. Não sabemos quem podemos ferir com as nossas palavras”. Os minutos que antecedem as atuações são geralmente exemplo disso. Quando o nervosismo toma conta das tunantes, Savana procura revisitar os exercícios praticados nos ensaios, de modo que os elementos sintam a confiança e o sentimento de estarem a tocar só para elas.

A experiência de Erasmus não afastou Savana da tuna. A ocupar o cargo de diretora na altura, viveu um dos momentos mais “desafiantes” aquando da organização da primeira digressão. “Uma aventura stressante, que, no final de contas, resultou”. Além disso, a distância despoletou a vontade de criar algo. “Deusa do Norte” é um dos marcos que mais orgulho traz à ensaiadora. O esboço do tema original acompanhava-a desde o tempo de caloira, mas foi em 2022 que se materializou. Modesta, acredita ter sido a única coisa que fez “de jeito”.

“Agora estamos com muito mais garra do que há um ano”, reflete. À medida que o número de elementos tem aumentado, em conjunto com o respetivo contributo de cada uma delas, a tuna ganha gradualmente mais identidade. “Recentemente, fomos a Almada e tivemos fundadoras a dizerem que foi a melhor atuação que já tivemos. Estava toda a gente com a cabeça no sítio certo. Não eramos 50 pessoas em palco, eramos uma tuna. O nosso foco eram as músicas que nos identificavam, tocar da melhor forma possível e divertir as pessoas”, conta.

“Começar do zero”

A procura de um grupo cultural com “um estilo musical mais parecido com o que se via nas tunas masculinas”, levou ao nascimento da Tun’ao Minho. Poses, assim conhecida na tuna, Severina Cardoso no cartão de cidadão, juntou-se a oito amigas que não se identificavam com as tunas femininas existentes.

Questionada sobre as dificuldades da fundação do projeto, o riso nervoso revela as várias etapas que tiveram de ultrapassar. A falta de base musical, o recrutamento de pessoas, o custo dos materiais, assim como todo o processo de promoção foram alguns dos obstáculos encontrados. Os restantes grupos mostraram-se disponíveis para agilizar esta primeira fase, bem como a própria ARCUM.

“Assustador e muito trabalhoso”, assim descreve a organização do primeiro grande evento: o Tunão. O festival que atualmente conta com a participação de tunas de diferentes pontos do país começou por ser um pequeno encontro de grupos. A dimensão tem vindo a crescer, fruto do “excelente” trabalho e “reconhecimento” que a Tun’ao Minho tem vindo a ganhar. Poses lembra essa época como uma oportunidade de aprendizagem, dada toda a gestão e logística envolvida.

Em retrospetiva, a fundadora não vê nada de errado neste caminho. “É um orgulho ver esta tuna crescer. Sinto que o espírito e os ideais que as fundadoras quiseram passar mantêm-se”, partilha, além de sublinhar a crescente evolução: “nunca estagnamos”. Dez anos volvidos, deposita nas novas gerações a plena confiança para continuar o legado daquilo que é a essência da Tun’ao Minho.

Para a vida, leva a “honra” da fundação de um projeto que lhe diz tanto e pelo qual tece um carinho especial “até ao fim da vida”. Contudo, confessa que fazer o “desmame” do “bebé” que viu crescer nem sempre foi fácil. Trata-se de “um trabalho pessoal, de aceitar as novas ideias, de não nos fecharmos àquela base que iniciamos”.

“As pessoas ajudam desde o primeiro dia”

A música sempre esteve presente na vida de Sara Hipólito, mas foi na tuna que se conheceu como Creepers. Desde o primeiro contacto com tunas académicas, sentiu-se mais acolhida pela Tun’ao Minho. Decidiu experimentar os ensaios e rapidamente se tornou um refúgio do seu percurso universitário.

Dos dois anos de caloira, destaca as “amizades, o convívio e a oportunidade de ir a imensos sítios de Portugal” que de outra forma não conheceria. As relações criadas quebram as fronteiras do grupo, no sentido em que “quem já se foi embora ainda mantém a ligação”. O momento da entrada, que pode parecer intimidante, torna-se acolhedor porque “no primeiro dia, as pessoas não se conhecem, mas estão sempre dispostas a ajudar”, espelho do espírito de entreajuda.

Tempos “desafiantes”, que requerem um esforço individual para tornar o coletivo mais coeso e, sobretudo, unido. “Visto de fora parece que é só ir atuar meia hora e já está”, mas estão muitos ‘quilómetros’ por detrás. Há toda uma logística e tarefas a concluir, além de todo o trabalho nos ensaios, que antecedem a subida a palco.

A responsabilidade que veio com a experiência acabou por afetar o próprio percurso académico. Assume-se como uma pessoa “organizada na desorganização”, faceta que veio a melhorar depois da integração no grupo cultural. As horas de estudo tiveram de ser mais bem aproveitadas, já que diminuíram em função do tempo dedicado à tuna. “Aquilo que antes podia demorar uma hora, faço em metade do tempo – e até de forma mais eficaz – porque está a chegar a hora do ensaio”, exemplifica.

A interação com outras tunas da academia é outro dos pontos altos desta vivência. São vários os momentos de diversão, entreajuda e crescimento musical, que ficam na memória de Creepers. Lembra entre risos episódios hilariantes, como quando “ofereceram um caloiro da TUM (Tuna Universitária do Minho) como prémio”.

 

Reportagem por: Carina Ribeiro e Marta Rodrigues