Hideaki Anno é um nome titânico. Mesmo ignorando o seu aclamado trabalho em animação – Neon Genesis Evangelion, Gunbuster – o visionário japonês tem um currículo praticamente intocável. Desde Love & Pop, onde esticou ao máximo as possibilidades do cinema digital e criou uma das melhores longas-metragens de estreia de sempre, que Anno mostrou o seu olho apurado para composições e o seu engenho na captura da ação. O seu filme mais recente, Shin Kamen Rider, continua essa tradição, desta vez com um estilo mais cinético do que nunca.

O filme abre a todo o gás e, ao fim de três minutos, já vimos vários camiões explodir e sangue suficiente para envergonhar cinema gore. Apesar de ser cinema propulsivo ao mais alto nível, Shin Kamen Rider também sabe abrandar e tem um sentido de ritmo refinado para um filme de super-herói. O guião de Anno é bastante expositório, mas a sua pura sinceridade e os seus traços existencialistas injetam pathos até nos momentos mais improváveis – o abandono da sátira sociopolítica central a Shin Godzilla, anterior filme de Anno, em favor de um ângulo mais íntimo é uma das maiores forças do filme.

Visualmente, Shin Kamen Rider é uma maravilha. O engenho de Anno é visível em todas as imagens e o realizador nunca se deixa limitar por questões logísticas, alternando constantemente entre planos captados por equipamentos diferentes. O design visual é variado e há uma introdução constante de novos elementos que mantêm sempre o interesse elevado. A luta entre o protagonista e Hiromi, a “vespa”, é a melhor sequência do filme e o exemplo perfeito da força dramática que Anno cria através da sua inventividade estilística.

Mesmo assim, o que verdadeiramente eleva o filme é a sua relevância temática. A apresentação do niilismo e da misantropia como nada mais do que extrema insegurança e como a principal causa de alienação torna-se mais importante com cada dia que passa, e Anno não se inibe de dar a solução para o problema: as relações com o outro e a comunidade.

Numa altura em que cada vez mais filmes ocos usam “empatia” – e versões bastardas! – como máscara para o seu vazio, Shin Kamen Rider parece um milagre: a empatia é somente um bónus naquele que é um dos melhores espetáculos cinematográficos do ano.