A estreia de Because the Internet de Childish Gambino data ao décimo dia de dezembro de 2013. O então novo álbum de estúdio do alter ego musical do aclamado comediante e ator norte-americano, Donald Glover, deu a conhecer ao público uma nova faceta repleta de talento. Este álbum exibe o seu talento além do hip-hop, mas, ainda assim, colhendo influências claras de artistas como Kanye West.

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Because the Internet é um projeto complexo e interessante. Para acompanhar o lançamento do álbum, Childish Gambino lançou uma curta-metragem, juntamente com e um roteiro de 72 páginas, que contam a história por detrás das letras do álbum. A forma como se encontra meticulosamente dividido, com as faixas numeradas e separadas por curtos interlúdios e sons ambiente, permitem uma experiência auditiva muito além do seu tempo.

O génio musical começa por uma introdução singular, com “The Library – Intro”. No mesmo registo desta introdução existem diversos interlúdios, como “Dial Up”, “Playing Around Before The Party Starts” e “Death By Numbers”, que servem meramente para a construção de um cenário auditivo que forma à história “contada” pelo artista. Passando diretamente aos títulos propriamente ditos: o caos e a mudança são desde cedo dados a conhecer pela sonoridade confusa, pesada e quase perturbadora de “I. Crawl” que acompanha o rap de Gambino e o seu flow tão característico.

A música seguinte, “II. Worldstar”, é do tipo que podia facilmente ser confundida com um interlúdio. As diversas interrupções entre versos e quebras regulares no beat chegam a tornar-se monótonas. “I. The Worst Guys” segue-se na lista e conta com a colaboração de Chance the Rapper. Neste track, Gambino começa por exibir com excelência a sua mestria na rima, enquanto Chance the Rapper  limita-se a cobrir o refrão com o mesmo verso – “All she needed was some” – até à exaustão. Extremamente repetitiva e enjoativa, a colaboração de Chance, que nada acrescenta, revela-se desnecessária e acaba por estragar o bom trabalho desenvolvido por Glover.

II. Shadows” é em diversos pontos parecida com “III. Urn“, um dos singles do álbum- apesar da primeira ter mais raízes de hip-hop. Em “II. Shadows” Childish Gambino parece dar um pequeno gosto do que é a imensidão do seu talento vocálico, apesar desta só aparecer dez faixas mais tarde, em “III. Urn“.

III. Telegraph Ave. (“Oakland” by Lloyd)” é um dos pontos mais altos de toda a compilação. Talvez por pura inclinação pessoal para o R&B e gosto especial pelo trabalho de Lloyd- cantor da música que Gambino usa como sample. Desde a letra à melodia suave e tão envolvente, não há absolutamente nada de negativo a apontar ao trabalho de Donald Glover. Ainda dentro do R&B é necessário dar destaque a “3005“, também single dentro do conjunto e prova do imensurável talento do rapper com uma lista repleta de muitos outros talentos.

Para contrastar e criar dinamismo na história contada, “IV. Sweatpants” traz, mais uma vez, o génio do lirismo de Gambino, dando uma experiência totalmente diferente aos seus ouvintes e muito ligado ao seu típico estilo de Rap/Hip-Hop. O caso de “V. 3005″ é totalmente distinto do restante que encontramos no álbum. Nesta produção podemos encontrar um som com o equilíbrio perfeito entre a veia R&B e Hip-Hop do americano. Muitos caracterizaram-na como a melhor title track do artista por muito tempo-  o que é totalmente compreensível, por ser fora do comum em termos sonoros e ter uma letra incrivelmente bem pensada e trabalhada.

Extremamente semelhantes em termos melódicos são “I. The Party” e “II. No Exit”. Usadas para dar sentido à storyline criada pelo cantor, as curtas faixas não deixam de ser interessantes, únicas e fora do comum. O facto de Gambino manter o fio condutor da história espelhado nas letras por tanto tempo confere-lhe um estatuto intocável enquanto compositor. Criar algo assim e dividi-lo em 19 faixas com tanta mestria em pleno 2013 não é algo que qualquer um seria capaz de fazer.

Algo que poucos além de Donald Glover conseguem fazer é apresentar um leque de músicas com qualidade e diversidade na mesma medida. Para comprovar isso mesmo, temos faixas como “I. Flight of the Navigator” e “II. Zealots of Stockholm [Free Information]“. A leveza e angelicalidade da primeira faixa são arrastadas até metade da seguinte e nada ajuda a prever a reviravolta que sucede: II. Zealots of Stockholm [Free Information] é dominada completamente pela influência de Kanye West e o seu trabalho em Yeezus (2013).

Para rematar o compilado surge “I. Pink Toes” que conta com a colaboração da talentosíssima Jhené Aiko. As vozes dos dois artistas combinam e encaixam de uma forma natural e agradável nesta canção relaxante e upbeat. Seguindo-se II. Earth: The Oldest Computer (The Last Night)” e “III. Life: The Biggest Troll [Andrew Auernheimer]” encerram o projeto, mostrando mais uma vez a plenitude do lado experimentalista do músico.

Todo o trabalho de Donald Glover leva-nos a uma só conclusão acerca dele enquanto músico: nunca teve receio de experimentar e arriscar. A sua destemidez levou-o à posição de verdadeiro génio no mundo musical.