Este domingo, o Festival de Literatura Utopia encheu a sala da Capela Imaculada com entusiastas leitores. Num primeiro evento conheceu-se a vida de José Rodrigues dos Santos.  Num segundo momento, discutiu-se o presente e futuro de mulheres escritoras.

 

Um suposto arquiteto vocacionado para o jornalismo

José Rodrigues dos Santos é uma das figuras jornalísticas portuguesas mais reconhecidas, tendo iniciado o seu percurso na RTP em 1990. Em entrevista a Pedro Vieira no Festival Utopia, referiu que nunca foi propriamente um sonho pelo qual lutou, mas sim uma sugestão de profissão após duas sugestões aconselhadas na escola: arquiteto e piloto aéreo. Tendo um certo interesse pelo jornalismo da BBC, aí estagiou com o seu próprio financiamento e prosseguiu pela carreira jornalística.

Já numa fase avançada, com a tese de doutoramento e o percurso na RTP consolidado, disseram-lhe “você é um romântico”. José Rodrigues dos Santos salientou que nunca havia pensado num possível talento para a literatura, mas que, de facto, sempre adorou escrever. Nesse sentido, de jornalista passou a escritor. “E porquê a ficção?” Porque “toda a ficção tem relação com a verdade”, defendeu Rodrigues dos Santos. O agora escritor referiu ainda que os acontecimentos podem ser contados não apenas de uma forma racional, mas também de forma emocional.

O escritor traz, de certa forma, a sua vertente jornalística para as suas obras. Exemplificou com o “Crime do Padre Amaro” de Eça de Queirós, “1984” de George Orwell e “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago. Algumas obras tornam-se escandalosas por trazerem a verdade e, para Rodrigues dos Santos, “o que era proibido era um fascínio, desde que fosse verdadeiro”.

O jornalista acredita que a importância da literatura reside na lembrança de determinadas realidades, de forma a prevenir repetições. O escritor considera que enquanto não assumimos os erros, tanto em obras como na educação, estamos “condenados a repeti-los”.

Ana Ferreira | ComUM

 

O feminismo no campo da literatura

Filipa Fonseca Silva e Teolinda Gersão, ainda que escritoras de épocas diferentes, reconheceram em conversa a opressão que sempre acompanhou as mulheres escritoras. Teolinda, tendo vivido no regime Salazarista, relembrou que “era impensável ser mulher escritora” e, apesar da mudança atual, salientou o caminho que teve de ser percorrido até aos dias de hoje.

Filipa Silva, sendo sobretudo uma escritora recente, destacou as mudanças que ainda estão por fazer. “Há um desfasamento total”, referindo que os homens acabam por ser mais reconhecidos em várias áreas. A escritora afirma que não faz sentido existir o conceito de “literatura feminina”, justificando que este já traz uma certa separação e um sexo que não existe na literatura. “Literatura não tem sexo”, referiu ainda a autora.

Teolinda Gersão não pôde deixar de concordar e lamentou esta separação de sexos, categorizando a literatura como uma arte que deve ter “liberdade absoluta”. Descartou qualquer expectativa ligada ao facto de ser mulher que os leitores pudessem ter da sua escrita. “A arte é o epitomo da liberdade na democracia” e Filipa Silva acrescentou a importância de se introduzirem novos vetores na literatura, referindo que “é importante as mulheres darem uma nova dimensão” a este ramo.

Ana Ferreira | ComUM