Cormac McCarthy foi um escritor norte-americano amplamente conhecido pelo seu estilo de escrita simples que abordava temas altamente complexos. Nos seus 40 anos de carreira, produziu 12 romances, arrecadando vários prémios literários e recebendo diversas adaptações cinematográficas. Os seus últimos trabalhos foram O Passageiro e Stella Maris, que formam um incrível díptico. As obras encerram o seu trabalho com chave de ouro, sobretudo Stella Maris. 

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A primeira coisa a reconhecer é que a obra não é uma narrativa convencional, e sim uma espécie de estudo sobre o niilismo e uma mente extremamente conturbada. O livro fala-nos sobre Alicia, uma mulher de 20 anos que se interna num hospital psiquiátrico devido às alucinações que tem tido. A história parece, á primeira vista, mais uma história sobre algum mistério por detrás da loucura do protagonista. No entanto, McCarthy afasta-se dos clichés literários ao ignorar uma linha de ação mais tradicional e linear, focando-se na exploração de Alicia e das suas patologias.

Contrariamente ao trabalho prévio do autor, Stella Maris não é nenhuma história incrível nem apresenta um conjunto de personagens memoráveis, mas sim uma discussão de ideias através da sua protagonista. Apesar de ser uma personagem concreta e complexa, Alicia funciona em grande parte como a voz de McCarthy, discutindo desde matemática à morte, algo especialmente interessante neste livro, sendo que foi o último trabalho do autor antes do seu falecimento.

Além dela, o livro contém ainda o seu terapeuta, que serve apenas como uma forma de permitir formular os seus pensamentos, e o seu irmão, a pessoa que a protagonista mais amou e com o qual tinha uma relação incestuosa. As únicas figuras ativamente presentes na obra são Alicia e Dr Cohen, sendo apenas a protagonista uma verdadeira personagem, movendo a narrativa com as memórias da sua vida e da relação com o seu irmão. No entanto, o facto de desempenhar o papel de ponte para os pensamentos de McCarthy, faz com que a personagem necessite de ser cúmulo da inteligência, tornando-se em certos pontos,  uma figura relativamente frustrante e gerando em certos pontos um diálogo pouco natural.

“O mundo não criou nenhuma coisa viva que não pretenda destruir”

O formato da obra é também algo importante a denotar. Afastando-se da convencionalidade literária e até do próprio estilo do autor, consiste inteiramente de diálogo entre Alicia e o seu terapeuta. O estilo de escrita, apesar de intimidante à primeira vista, permite-nos uma melhor imersão nos temas que McCharthy apresenta, chegando até a causar um ligeiro desconforto ao leitor, que se sente como um observador invasivo de uma sessão de terapia. As «marcas» do escritor continuam, no entanto, presentes neste livro. Indo das suas descrições nuas e cruas de violência à repetição proposital de diálogo,  o «conforto desconfortável» criado pelo autor permanece nos leitores.

Stella Maris é um livro extremamente difícil de avaliar.  Não se destaca como uma obra em si, mas sim como uma carta de despedida de Cormac McCarthy aos seus leitores, tendo um debate sobre os mais diferentes temas que sempre quis discutir, mas nunca teve a oportunidade. O sentimento de término do último capítulo gera  uma enorme tristeza: McCarthy foi um dos maiores escritores americanos que já existiu e sua falta será gravemente sentida. Recomenda-se, por isso, a leitura deste livro apenas após o leitor já ter lido O Passageiro (uma vez que é o segundo livro da série) e alguns dos outros trabalhos do autor. Apesar de parecer apenas uma narrativa confusa que se perde na exploração de vários temas, esta obra é muito mais: é um último adeus.