Sem Tempo retrata a sobrevivência de uma sociedade em um futuro próximo e distópico onde o envelhecimento é controlado para evitar a superpopulação. Em um mundo onde o tempo é a principal moeda de troca para continuar vivo, cada segundo é valioso. É dessa forma que os ricos vivem muito mais do que os pobres que, em sua maioria, sofrem diariamente com a sua existência limitada até os seus 25 anos de idade.

Um relógio digital presente no braço de cada cidadão desde o dia de seu nascimento destaca quanto tempo de vida há para cada um. É assim que surge a necessidade do trabalho frenético por parte daqueles que não nasceram em condições privilegiadas financeiramente. Tudo isto para garantir o pagamento no final do dia e aumentar a quantidade de tempo que lhes resta para continuar a viver naquele mundo.

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É nesse contexto que Will Salas, um jovem que vive na zona periférica da cidade, luta a cada minuto pela sua sobrevivência com uma quantidade muito restrita de capital. No momento repentino em que o protagonista recebe uma doação misteriosa, ele passa a ser perseguido pelos guardiões do tempo por um crime que não cometeu. Como uma forma de segurança para a sua própria vida, Salas sequestra Sylvia Weis, a filha de um dos maiores milionários da sociedade. Isto como vingança e também para descobrir uma maneira de derrubar o sistema maligno em que o tempo é dinheiro e as minorias precisam implorar por cada segundo de suas vidas.

Nos seus 109 minutos de trama, Sem Tempo descreve com clareza a sua ideia principal acerca dos impactos das tecnologias na sociedade e nas suas hierarquias económicas. O enredo do longa-metragem utiliza nuances de ação e suspense, mas deixa a desejar na construção de suas personagens. Isto porque, com o seu ritmo acelerado e a tentativa de criar reviravoltas que deixem os telespectadores envolvidos, pouco foi explorado sobre a personalidade de cada elemento da trama, tornando-os previsíveis e superficiais em certas ocasiões.

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A falta de motivação e de emoções demonstradas pelo personagem principal limitam o impacto emocional da história, o que provoca a falta de profundidade no desenvolvimento do enredo. Mais que isso, os antagonistas e vilões são retratados de forma unidimensional, caricata e fortemente estereotipada. Como consequência, eles ocupam papéis meramente secundários ao servirem apenas como obstáculos para o protagonista se superar, sem muitas camadas de complexidade.

Ainda que as reviravoltas sejam uma parte essencial e esperada nos filmes de suspense, Sem Tempo desenvolve o seu enredo com uma  certa dependência excessiva de surpresas para a impulsão da narrativa. Sendo o relacionamento entre Will e Sylvia construído para se tornar uma das principais reviravoltas da história, este acaba sendo extremamente previsível desde o primeiro momento em que as personagens se encontram. É desse modo que muitos eventos desagradam os fãs da longa-metragem, uma vez que parecem forçados e pouco orgânicos.

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Apesar das falhas na construção do enredo, o filme apresenta os seus pontos fortes, principalmente em termos visuais. As cenas geralmente seguem uma paleta mais fria, com cores esverdeadas, tons de azul e cinzas para dialogar com o suspense que a narrativa pretende causar. Assim, as passagens de ação são bem coreografadas, criando uma atmosfera de tensão e nervosismo muito bem expressada.

A cinematografia e a direção do filme são evidenciadas de forma competente, facto que consegue manter o público entretido em muitas sequências apesar da superficialidade do enredo. A conceção criativa do filme consegue ser evidenciada com sucesso a partir da estética futurista e dos figurinos de cada personagem, englobando os telespectadores nesta realidade distópica. Os enquadramentos de cada cena também são pensados com grande fundamento e combinam-se com a paleta de cores utilizada nos termos visuais, juntamente à direção de fotografia de Roger Deakins.

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A trilha sonora de Andrew Niccol é um ponto positivo no filme, com canções e ruídos combinados por Craig Armstrong que garantem o vislumbre do cenário caótico em que estão envolvidas as personagens. Além disso, a escolha das músicas é bem acertada com cada cena, fazendo quem assiste sentir, compreender e se identificar com os sentimentos ou angústias de cada momento de tensão, tristeza ou até mesmo de paixão.

Sem Tempo apresenta uma narrativa divertida e rápida da modernidade, além de retratar problemáticas pertinentes como o controlo social, a segregação, a hierarquia e os desafios enfrentados pelas minorias com o advento das novas tecnologias. Com uma trama mais focada em momentos de ação e suspense, o longa-metragem oferece uma dose de entretenimento, juntamente à reflexão social do que poderá se tornar o mundo no futuro. É assim que, mesmo com uma grande superficialidade do enredo, o filme explora o dito popular “tempo é dinheiro” de forma clara e sempre a apontar a sua conotação opressora.