Mais de 20 anos depois do início da sua carreira, Budda Guedes continua a espalhar a mensagem de inovação, inclusão e de liberdade com a sua música.

Budda Guedes é músico, professor e organizador de eventos há mais de três décadas e, no seu tempo como artista, fundou os Budda Power Blues, a mais famosa banda de blues portuguesa. Em conversa com o ComUM, o artista revelou aquilo que, a seu ver, torna a sua banda diferente das demais e partilha o segredo para ser reconhecido na indústria.

Desde o primeiro concerto que Budda Guedes deu que sabia que a música era algo que queria sempre: “Mal comecei a tocar, imediatamente percebi que era isso. É isso que sou, é isso que me define”, disse ao ComUM. Define o seu percurso como quase autodidata, nunca se fechou num quarto a aprender sozinho mas também nunca procurou ter aulas e um curso de qualquer instrumento, por conhecer quem acabava os estudos com uma imagem negativa da música.

O artista considera que a música sempre foi um modo de vida, mas apenas em 2004 é que se tornou uma possibilidade de carreira. Com 14 anos, começou a sua instrução como guitarrista com aulas e cursos de guitarra aqui e ali dados por vários músicos e instituições diferentes. O cantor partilha as suas aprendizagens em espetáculos nos quais participa desde cedo. Ao contrário do que seria expectável, Budda Guedes fez o curso de Gestão de Empresas na Universidade do Minho “para poder fazer a música que queria fazer sem qualquer necessidade de a comprometer”. Desde aí, participou em iniciativas para a divulgação de música portuguesa e não só.

Budda Guedes quebra estereótipos em relação à sua profissão, afirmando que cada emprego e carreira tem os seus desafios e que nem toda a gente tem o que é preciso para fazer música: “Se queres ser músico profissional e não gostas de carregar, viajar e esperar, não vale a pena tentar, é 90% da profissão”. Afirma, no entanto, que é isso que significa fazermos aquilo que gostamos: “Na realidade, qual a diferença entre ser jornalista, escritor ou músico? Acho que isto acaba por ser super libertador”.

Em 2004, dá-se uma grande mudança na vida do artista, que fundou os Budda Power Blues, na qual atua como vocalista e guitarrista, juntamente com o seu irmão, Nico Guedes, na bateria, e Tó Barbot no baixo. Budda Guedes disse ao ComUM que “sempre pensei no blues como uma forma de improvisar e de ser livre.” Antes dos Budda Power Blues, tinha um outro grupo, porém, com oito elementos, o que tornava mais difícil criar algo fora da caixa, como pretendia, “e (…) queria criar um projeto onde pudesse ser mais despreocupado”. A banda nasceu do desejo de criar um power trio, à semelhança de Nirvana, The Jimi Hendrix Experience. O cantor contou ao ComUM que o que o fascinava nestes trios era “isso de com três pessoas tu conseguires preencher um espetro sónico tão amplo como com um octeto”, além da “rudeza de três pessoas a tocar”.

Para o cantor, o que mais falta no mundo da música atual é público. Diz que, hoje em dia, “as pessoas não vão a concertos. Vão a eventos. Ver as pessoas que já conhecem. E ser vistos a verem as pessoas que já conhecem”. O artista compara a preferência em ver performances online sobre concertos ao vivo àquela de quem prefere ver o filme ao teatro, “porque numa peça de teatro és tu o realizador (…) E um concerto é exatamente a mesma coisa. Primeiro tem o fator também como na peça de teatro. Está a acontecer. Ainda não aconteceu”. Desta forma, agradece, ao mesmo tempo que lamenta, a internet. Por um lado, por toda liberdade que nos dá no sentido de conhecer, expandir os nossos horizontes musicais na distância de meros cliques. Por outro, por tornar esta procura online um substituto dos concertos ao vivo e por trazer tão pouco protagonismo a plataformas como a MTV, desenhadas, originalmente, para partilhar música nova, “o que se fazia no mundo”, e sente “falta da procura mais ativa do público, por coisas mais interessantes”.

Ao longo dos últimos 20 anos, os Budda Power Blues já deram mais de mil concertos. O cantor admite ser incapaz de isolar um como o preferido, já que, “tirando coisas muito estranhas que possam acontecer no concerto, a parte de cima do palco é rapidamente apagada da memória”, destacando apenas um concerto, de abertura aos AC/DC, em 2008, que diz ser inigualável puramente por ser algo “que apenas se faz uma vez na vida, tocar para 60 mil pessoas”. Em todo este tempo, o artista considera que “há uma química muito maior entre nós [os membros da banda]” e que isso permitiu uma evolução positiva do grupo.

Budda Guedes introduz um conceito aparentemente simples: “A música são 12 notas e funcionam todas. São 12 cores, 12 ferramentas. Que podem ser combinadas de muitíssimas maneiras diferentes para construir o músico”. Daí, está muito presente, no artista, uma ideia de inovação, de não repetir o que já foi feito, porque “não faz sentido. (…) Tudo o que eu fizer será sempre uma réplica.” Tenta, na sua música, inscrever a “Portugalidade” de formas subtis, incluindo nas músicas melodias e referências quase invisíveis ao público, apenas para a banda. “Feeling Earth fala da paisagem alentejana. É inspirado na calma e na brisa alentejana. […] Going Down South fala da viagem até à Covilhã”. A única constante na sua música é o inglês. Canta sempre na língua estrangeira por considerar que está demasiado ligada ao estilo para que este seja desprovido da mesma. Para Budda Guedes, a língua é algo sónico, não só conceptual: “Mudas a língua, mudas a música. Mudas o caráter, mudas o som das palavras”.

Budda Guedes e o seu grupo fazem música há quase 20 anos, e há quase 20 anos que experimentam, inovam, e fazem muito pela música portuguesa. Com diversos álbuns publicados e sem sinais de parar num futuro próximo, a banda continua a encantar o público português, e não só, com os seus ritmos e letras sem igual.