Considerado por muitos a obra-prima de Francis Ford Coppola, O Padrinho estreou em 1972. Desde então, ocupa um pedestal na história do cinema, sendo um dos mais premiados.
Adaptado do livro de Mario Puzo com o mesmo título, é o primeiro filme da trilogia. Pinta-se o retrato dos Corleone, uma das mais influentes das cinco famílias mafiosas de Nova Iorque. Na sua essência, a história consiste numa exploração geracional de poder, assente no lugar do chefe de família, do Padrinho, ocupado pelas duas figuras centrais do filme: Don Vito Corleone e o seu filho, Michael.
Inicialmente, Michael demonstra relutância a envolver-se nos negócios clandestinos da família. Com uma atuação brilhante de Al Pacino, o mais resguardado dos irmãos sofre uma transformação, uma perda de inocência, que permite a metamorfose de uma personagem mais humana na figura moralmente ambígua do Padrinho. Já Don Corleone – cuja interpretação única garantiu o Oscar de Melhor Ator a Marlon Brando – percorre o processo oposto: com a passagem do seu legado ao filho, distancia-se da figura sombria que representava, criando no espetador um crescente sentimento de empatia pela personagem. Os últimos momentos desta longa-metragem, nomeadamente a célebre cena do batismo, consolidam o lugar de Michael no trono do Padrinho.
A narrativa tem por base uma visão patriarcal das dinâmicas familiares e sociais. O poder é atribuído a figuras masculinas – o Padrinho retrata um patriarca absoluto, que assume o papel de protetor da família, dono de uma autoridade inquestionável. Embora haja personagens femininas, estas adotam papéis secundários, geralmente de cariz maternal, sublinhando uma dependência aos homens. Esta visão reflete as convenções sociais da época – os anos 40 em Nova Iorque – enraizadas num sistema que prioriza o masculino. Michael navega este ambiente, onde a manipulação e violência são as principais ferramentas para assegurar o poder.
Essa violência é acentuada através dos efeitos especiais, um aspeto minuciosamente trabalhado, de modo a aproximar a história do mundo real. Coppola consegue fazer esta aproximação ao conjugar diversos componentes técnicos, desde a iluminação à montagem, para criar uma narrativa harmoniosa. Um elemento fulcral na união de todas as camadas do filme é a banda sonora – as melodias de Nino Rota estabelecem uma atmosfera melancólica e sombria, característica do género em que se enquadra.
No entanto, O Padrinho não é apenas uma história de crime, nem suspense, nem drama: é uma análise da condição humana, da moralidade, da lealdade, do sacrifício, da passagem geracional de poder, feita a partir do núcleo de uma família que vive do crime num contexto patriarcal. É uma obra intemporal que não pode recusar.
Título original: The Godfather
Realização: Francis Ford Coppola
Argumento: Mario Puzo e Francis Ford Coppola
Elenco: Al Pacino, Marlon Brando, James Caan, Diane Keaton
País de origem: Estados Unidos da América
1972




