No mês de junho deste ano, Yorgos Lanthimos retornou ao cinema, depois do sucesso de Pobres Criaturas (2023), com Histórias de Bondade. Escrito com Efthimis Filippou, colaboradora de muito tempo, este filme é mais sombrio e perturbador, contrariamente aos mais acolhedores, como A Favorita (2018). No elenco, vemos estrelas habituais dos filmes de Lanthimos, como Emma Stone, e novatos, como Jesse Plemons.
A longa é dividida em três histórias, interpretadas pelos mesmos sete atores, intituladas de “The death of R.M.F.”, “R.M.F. Is Flying” e “R.M.F. Eats a Sandwich”. A sigla estranha não tem um significado específico, tendo o realizador deixado em aberto à interpretação do público. No primeiro capítulo, seguimos Robert Fletcher e a relação tóxica que tem com o seu chefe e sua amante. Nos últimos 10 anos, tudo o que Robert faz é decidido por Raymond, desde à roupa que veste até à escolha da sua esposa. No entanto, quando é apresentada uma tarefa extrema, ele recusa-a, é despedido e a sua vida descarrilha.
No segundo, e menos popular, capítulo, Plemons e Stone interpretam o casal Daniel e Liz, recentemente resgatada depois de estar perdida no mar. Apesar de aliviado, o marido começa a estranhar as ações da mulher, obrigando-a a provar a sua identidade. Isto resulta num horror corporal sangrento com um final feliz. O terceiro capítulo conta a história de um culto e a sua busca pela mulher profetizada, que reviveria os mortos. Enquanto Andrew e Emily embarcam nesta missão, os líderes Omi e Aka continuam a sujeitar os seus membros a tarefas impossíveis em troca de sexo.
Apesar de serem histórias diferentes, existem temas que as unem todas. Um deles é a falta de “bondade”, contrariamente ao que o título indica. O mais evidente é a ideia de controlo do livre arbítrio, sendo um destaque no primeiro capítulo. A comédia sombria também contém bastante violência e nudismo, misturando canibalismo com sexo. Estes aspetos são brilhantemente personificados pelas performances dos atores.
Plemons age como personagem principal em todos os capítulos, revelando-se estoico e infeliz. Stone e Dafoe mostram, mais uma vez, o seu leque de emoções, sendo firmes e carismáticos. Os atores secundários, apesar de pouco tempo no ecrã, surpreendem com as suas atuações, sendo estes Margaret Qualley, vista também em Pobres Criaturas (2023), Joe Alwyn, Hong Chau e Mamoudou Athie.
Depois dos últimos sucessos de Lanthimos, e apesar da interessante premissa, o filme cai aborrecido. Mesmo tendo diferentes histórias pequenas, a longa tem cerca de duas horas e meia, o que, ao final de um tempo, torna-se tedioso. Cada capítulo individualmente é intrigante e visualmente agradável, graças ao talento de Yorgos Lanthimos que consegue ligar o controlo da realização com o sentimento de dominância presente na longa.
Histórias de Bondade é um filme pesado, longo e macabro, sendo apenas recomendado a uma audiência específica. Demonstra não só a singularidade do realizador no cinema, como também a sua abordagem minimalista, preferindo a estética visual. A música usada nos créditos iniciais da longa, “Sweet Dreams (Are Made of This)” é perfeita, explicitando os temas nas suas letras (‘Some of them want to use you/ Some of them want to get used by you/ Some of them want to abuse you/ Some of them want to be abused’).
Título original: Kinds of Kindness
Realização: Yorgos Lanthimos
Argumento: Yorgos Lanthimos, Efthimis Filipou
Elenco: Jesse Plemons, Emma Stone, Willem Dafoe
EUA / Reino Unido / Irlanda
2024





