Em abril de 2022, a OpenAI anunciou o programa DALL-E 2, capaz de gerar imagens complexas a partir de descrições que os utilizadores colocassem na caixa de texto. A receção desta ferramenta levantou muitas questões, mas que rapidamente foram abafadas pela adesão à mesma, em que diversas pessoas a utilizaram para fazer os seus memes e imagens fofas para partilharem com os familiares e amigos nas redes sociais e, eventualmente, utilizarem para trabalhar.
Mas nem tudo nesta vida são mares de rosas, sendo que através destas novas ferramentas que conseguem replicar tanto a dicção e a forma de escrita humana (embora ainda com alguns erros), surge um grande fluxo de notícias falsas. Observadas de repente e com a apresentação certa, podem enganar os leitores mais desatentos; pequenos criadores que se especializam em ilustração, narração ou edição de vídeo, vêm os seus serviços a não serem escolhidos por uma empresa ou negócio, pois estes optam por uma alternativa mais barata (ou até gratuita) através de aplicações generativas de inteligência artificial (IA).
Será muito mais lucrativo para diversos negócios utilizar estas ferramentas, mas até que ponto não será mais vantajoso, para uma empresa, dar um pouco mais de forma a obter um produto único e feito de propósito para as suas necessidades? Imagine-se que para negócios pequenos, se calhar a margem de gasto não seja tão elevada para adquirirem tal serviço, mas para grandes empresas a história não será a mesma.
Em 2022, a Cadbury lançou, na Índia, o projeto “Not Just a Cadbury Ad”, onde pequenas lojas poderiam inserir os detalhes do seu negócio e receberiam um vídeo de Shak Rukh Khan (considerado o “Rei de Bollywood”) a narrar e falar da loja. Através da análise de movimentos faciais e da gravação de voz, a IA adapta automaticamente o texto ao que Shak Khan tem de dizer.
Embora seja uma ideia altruísta por parte da Cadbury, um grande fluxo à utilização desta ferramenta vai levar a centenas de negócios terem vídeos iguais, a elogiar da mesma forma os serviços que oferecem. Perde-se aqui o fator exclusividade, pois todos oferecem o mesmo e a aparição do ator Shak Khan perde o efeito e impacto na escolha do produto, que a loja pretende vender.
Levanta-se outra problemática com este exemplo: Será que podemos confiar naquilo que a celebridade fala no anúncio? Seja num contexto de vendas ou de política, a habilidade destas ferramentas generativas poderem alterar o discurso é bastante preocupante.
Um caso recente que gerou alguma conversa, foi um vídeo de um alegado ex-aluno de Tim Walz (a escolha de Kamala Harris para Vice-Presidente, na corrida à Casa Branca) a afirmar que sofrera abuso sexual às mãos de Walz . Apesar de algumas imperfeições no vídeo, uma pessoa que veja o vídeo sem prestar grande atenção aos detalhes poderá tomar o que vê como verdade, já para não falar que divulga uma informação falsa, que poderá afetar a decisão de voto dos eleitores que não procurem informar-se quanto à veracidade do vídeo.
São cenários que começam a tornar-se uma norma no espaço mediático, seja em contexto político, publicitário ou até mesmo artístico. Resta-nos a nós, como público, aprender a conviver com estas ferramentas e, mais do que nunca, a tornarmo-nos céticos quanto à informação que consumimos, de forma a não sermos facilmente enganados.


