Decorreu em Braga, pelo segundo ano consecutivo, o Festival Literário Utopia. Ontem sucedeu-se uma conversa descontraída ente Carlos Vaz Marques, o moderador, Ricardo Araújo Pereira, um dos mais proeminentes humoristas portugueses, e Jeremy Dauber, professor da Universidade de Columbia e autor do livro Os Judeus e a Comédia: Uma História Muito Séria. O encontro, com uma mistura de reflexão e momentos hilariantes, explorou as conexões entre humor, cultura e identidade judaica, abordando questões universais que transcendem fronteiras.
Dauber destacou o papel exclusivo da comédia no contexto judaico, explicando que funciona como mecanismo de comunicação e integração social. Mencionou também a necessidade de como entender o público – característica essencial da comédia – reflete a experiência histórica dos judeus, vivendo em diáspora. A comédia, segundo o professor, é uma ferramenta que combina a autoconsciência com a tentativa de pertença, que proporciona um senso partilhado de humanidade.
Ricardo Araújo Pereira trouxe a sua perspetiva sobre o tema. Destacou como o humor judaico se apoia em paradoxos humanos, como a consciência da mortalidade. Num momento memorável, comparou a condição humana representada pelos judeus ao super-herói Superman: “Os judeus são super-humanos porque sabem, mais do que ninguém, que vão morrer”. Esta introspeção, combinada com um tom satírico, reflete o tipo de humor que encontra graça na tragédia.
O debate também abordou o papel da religião como fonte de humor. O comediante observou que, no judaísmo, a ausência de uma forte ênfase na vida pós-morte permite uma maior liberdade de expressão humorística. Apontou também como o Livro de Ester, do Antigo Testamento da Bíblia, possui elementos que podem ser interpretados como cómicos, com situações quase absurdas que lembram desenhos animados.
Dauber complementou ao explorar a ideia de “distância cómica”: a capacidade de encontrar humor na tragédia com o passar do tempo. Segundo o escritor, a equação “comédia = tragédia + distância” transforma experiências dolorosas em material para reflexão e riso.
A questão dos limites do humor foi inevitável, especialmente no contexto de temas sensíveis como o Holocausto. Ambos os oradores concordaram que não há temas intrinsecamente proibidos na comédia, desde que sejam “tratados de forma adequada”. Dauber citou exemplos de comediantes, como o americano Larry David, que conseguem abordar o Holocausto de maneira satírica sem desrespeitar a sua gravidade, usando o humor como crítica à banalização da história.
Embora o foco fosse a comédia judaica, os participantes enfatizaram a sua universalidade. Histórias e piadas judaicas frequentemente ecoam em outras culturas, como nas tradições portuguesas. Ricardo Araújo Pereira notou semelhanças entre as mães judias e as avós do norte de Portugal, ambas caracterizadas por uma preocupação hipercrítica e humorística com os pequenos detalhes da vida quotidiana.
Um dos traços marcantes da comédia judaica é a auto-depreciação, algo que, segundo Freud, é raro em outras culturas. Para Ricardo, esse tipo de humor é uma espécie de “mecanismo de defesa”, mas também carrega complexidades, podendo ser mal interpretado como auto-pejurativo. Destacou que a capacidade de rir de si mesmo é essencial, mas deve ser separada da intenção de reforçar estereótipos externos.
A conversa no Festival Literário Utopia revelou a comédia como lente poderosa para explorar questões culturais, históricas e filosóficas. Mediante um diálogo dinâmico e recheado de piadas, Jeremy Dauber e Ricardo Araújo Pereira demonstraram como o humor transcende barreiras, conectando pessoas de diferentes origens, através de uma celebração compartilhada da humanidade e das suas contradições.



