What’s Wrong With New York? é o álbum de estreia do músico americano The Dare. Lançado dia 6 de setembro é um híbrido entre techno, rock e dance, que reflete o cenário musical dos anos 2000. Com 10 faixas que se desenrolam ao longo de 27 minutos, The Dare apela pelo regresso de uma Nova Iorque hedonista.
Ao abrir com “Open Up”, The Dare está essencialmente a dizer “preparem-se, foi nisto que se meteram”. A guitarra elétrica, os cânticos em coro, as palmas, os glitches, são imediatamente caóticos (num bom sentido), como se tivéssemos sido atirados para a zona mais funda da piscina. As boas-vindas refletem-se na letra com “Just take my hand, I’ll take away the pain’”.
Em “Good Time” somos acompanhados pelo sintetizador através de uma nostalgia por um passado recente, os últimos anos da década 2000. Esta era é quase parodicamente recriada no álbum e romantizada em contraste com a atualidade da presença constante da internet. Há um chamamento a viver experiências novas, em vez de sentir em segunda mão as vivências que testemunhamos online (“I’m in the club while you’re online”). Além disso vemos nesta faixa um manifesto pela club culture, especialmente como algo que vai preencher um espaço vazio e que vai tornar o quotidiano mais tolerável, acompanhado por gritos cativantes a contrastar com o refrão mais grave e sensual.
“Perfume” é uma representação sonora de centenas de anúncios de perfume, mas ainda muito alinhado à imagem arrogante e confiante de The Dare. Ele é incrível a escrever letras marcantes, que por si só tornam o álbum numa experiência agradável. Ainda, afirma The Dare como uma figura desafiante, ao dizer, por exemplo, que quer cheirar bem enquanto arde no inferno porque o fogo faz suar. A sonoridade desta música é muito característica do estilo do artista com uma batida marcante, a mesma dinâmica de grito/voz grave que ouvimos na canção anterior e o soltar da batida que parece um pontapé musical.
A canção mais conhecida deste projeto é “Girls”, o que é compreensível porque tem uma qualidade viciante. Só não foi criada num laboratório para tocar em discotecas porque nada nela parece calculado ou forçado. Além disso, é um conceito divertido que perpetua a narrativa hipersexual do The Dare.
A quinta faixa, “I Destroyed Disco” abre com “i break records, glasses, faces”, e este tema continua ao longo da música através de um barulho muito semelhante ao som de vidro a partir. Tal como muitas outras músicas desta obra, é um hino da rebeldia e do quebrar normas. Pega em noções retro com a própria referência a disco e ideias de ficção-científica e futurismo com o uso de efeitos robóticos na voz de The Dare. É nesta música que encontramos o que deve ser a frase mais icónica e mais representativa da sensação transmitida pelo trabalho de The Dare, “What’s a blogger to a rocker, what’s a rocker to The Dare?” que também mostra algum daquele desprezo pela internet presente em “Good Time”.
A meio caminho do final do projeto, é relevante mencionar que a primeira metade do disco é superior, se a meio não estiver cativado, não vai ser o restante que o vai conquistar. Em “You’re Invited” nota-se mais influência do rock com o uso do baixo e um som mais funky, ironicamente mais disco depois da música anterior. Há um tema de encontrar pontos em comum com um inimigo, de preservar a paz com a ideia de que “toda a gente está convidada” e da liberdade associada a experiências novas. É muito fácil de acompanhar, com os seus ooh-oohs, tal como o resto do álbum.
“All Night” é mais inesperado, The Dare canta muito em vez do estilo de gritos usado nas músicas passadas, mas continua coeso com o projeto. No entanto, a repetitividade usada nas outras músicas de forma vantajosa torna-se um bocado cansativa nesta faixa em específico. O que o artista tenta fazer com esta canção é muito mais bem conseguido na faixa seguinte, “Elevation”.
Em “Movement” vemos o regresso do barulho distorcido que funciona muito bem neste álbum, mas não por períodos longos como nesta música. Depois de uma cadência mais calma, voltamos em força com a faixa mais caótica do álbum, volta a energia das primeiras seis músicas, mas com a sensação que o nosso cérebro está a derreter.
Por último, “You Can Never Go Home” é uma boa escolha para faixa final. Descreve perfeitamente o universo criado com o álbum e é autoconsciente, porque sabe gozar com a dependência das músicas em referências a hinos passados: “Sometimes I only sing one note / Yeah, sometimes I steal what others wrote”. Nesta faixa são incluídos todos os elementos mais icónicos usados nas músicas anteriores, funcionando como uma espécie de síntese do projeto.
De facto, o movimento do indie sleaze tem tido um reavivamento, e se procurar pela tendência nas redes sociais a probabilidade de ouvir algo de What’s Wrong With New York? é enorme. Podemos então dizer que a missão de The Dare foi bem-sucedida? Embora as faixas não sejam inovadoras, o projeto é coeso e cumpre o papel de revitalizar este momento cultural de forma refrescante e atualizada.
Nome: What’s Wrong With New York?
Artista: The Dare
Data de Lançamento: 6 de setembro de 2024
Editora: Republic Records



