No dia 8 de novembro, foi lançado o álbum de estreia da cantora polaca Sara James. PLAYHOUSE conta com 18 faixas e um conceito que prende os ouvintes do início ao fim.

O álbum é apresentado como uma produção cinematográfica, transpondo os limites da música. Com vários interlúdios que contribuem para o desenrolar da história, a artista de 16 anos mostra ao público distintos aspetos do seu mundo como uma analogia de “casa”.

Photo by Jan Dybus

Na primeira faixa, Sara introduz o conceito do projeto: “e se as coisas que guardamos dentro de nós não querem brincar connosco, mas sim usar-nos?”. A cantora convida os ouvintes a visitar, inicialmente, o quintal da sua “casa”. Lançada como single em agosto, a primeira música, “Detox”, apresenta um videoclipe sombrio e antecipatório do resto do álbum. Sara canta sobre a necessidade de se deixar uma relação tóxica. O destaque vai para as mudanças de ritmo que atribuem um grande dinamismo.

“Psychopretende consciencializar para os problemas mentais e a pressão social sentidos pelos jovens. Com um ritmo que remete mais para o RnB, “One Last Chance” é uma das primeiras lufadas de ar fresco de PLAYHOUSE. A vontade de dançar é novamente sentida quando se ouve “Feel so Good”, música na qual Sara James explora o potencial vocal que a levou à final do America’s Got Talent em 2022 ou ao segundo lugar da Eurovisão Júnior 2021.

Vinda logo a seguir, “Like Me” é uma das músicas mais interessantes do álbum. Apesar da duração de apenas dois minutos, conta com um ritmo contagiante, também devido à agressividade com que Sara canta na mesma. Como afrodescendente, James parece libertar tudo o que tem a dizer a outras jovens que pretendem ser como ela apesar de lhe direcionarem críticas, sendo que a presença de um “obrigado” na letra desperta de imediato a atenção.

O ambiente na “casa” de Sara James volta a acalmar com a sétima faixa, “Salty”. Juntamente com a introdução à mesma, “Tiny Heart” é uma das músicas mais agradáveis, tendo a vibe perfeita para viagens de carro durante a noite. A associação da canção com o título do álbum é clara na letra “esta casa parece agora uma prisão”.

Sara interrompe a sequência musical para convidar o “visitante” a entrar finalmente dentro da “casa”. Contudo, a forma como o interlúdio “I trust you, I really do…” termina indica que o convidado não o faz de forma respeitosa, pondo em causa a ordem na mente da cantora. É a partir daqui que o conceito das últimas músicas se desenrola. Com o ritmo mais sinistro do álbum, “51 50” parece ter sido lançada um bocado tarde para o Halloween, época na qual o lançamento como single teria sido perfeito.

“Idk me anymore” é talvez das músicas mais esquecíveis, não obstante a ritmicidade do instrumental. As duas faixas seguintes, “I tell everyone about you” e “Blue”, são as mais calmas e emocionais de PLAYHOUSE, mostrando uma versão diferente da artista. A primeira é dedicada à falecida avó materna e “Blue” conta, ainda, com outras versões em colaboração com o cantor belga Berre e a sueca LOVA.

Totalmente diferentes uma da outra, “Collarbone” e “You Shouldn’t Cry” são, também, as músicas mais distintivas do álbum. É esta plasticidade que distingue o trabalho de Sara, contribuindo para que o ouvinte o deseje ouvir na totalidade: neste álbum, toda a gente encontra pelo menos uma música de que goste.

Depois da montanha-russa de emoções, PLAYHOUSE encerra com uma música leve. “Sunshine State of Mind” integra elementos de indie rock no refrão e aborda o desejo de se querer estar bem ao redor daqueles que nos amam, contando com um videoclipe mais alegre que os restantes. Por fim, Sara James convida os ouvintes a voltar a explorar a sua “casa”, tendo em conta “já lhes ter deixado as chaves da mesma”.

Considerando que é o primeiro grande projeto de Sara, pode-se afirmar que PLAYHOUSE é o resultado de um conceito criativo já bastante maduro e, infelizmente, não tão explorado por artistas mais conceituados. A autenticidade de cada música e o contributo da jovem na escrita são, também, claramente sentidos. Por outro lado, espera-se que Sara James não tenha medo de voltar a compor em polaco, como no início da sua discografia.