Se falarmos dos nomes que mais se destacaram este ano, Chappell Roan tem um lugar garantido nessa lista. Após ganhar alguma fama este ano, a maioria de nós descobriu um pequeno tesouro: o primeiro álbum da artista, lançado em novembro de 2023.

Chappell Roan by Ryan Clémens

Tudo começou com a GUTS Tour, onde se apresentou como ato de abertura na digressão da sua amiga Olivia Rodrigo. Foi nesse momento que Chappell começa a ser falada, quer seja pela ambiciosa presença de palco ou pelas roupas exuberantes com que se apresenta. Depois, lança a aclamada “Good Luck, Babe”, que rapidamente se torna um hit em todo o lado. Desde festivais a abarrotar por ela e prémios que a consideravam como a revelação de 2024, o seu ano estava apenas a começar.

A verdade é que, antes deste turbilhão imenso, Chappell já havia lançado o seu primeiro álbum de estúdio, o The Rise and Fall of a Midwest Princess. Não tendo a plataforma merecida aquando do seu lançamento, a obra viu a luz do sucesso no ano seguinte.

Uma das faixas que mais ganhou popularidade é exatamente a primeira do álbum. “Femininomenon” começa com uma batida mais calma, evoluindo até chegar a um ponto extremamente caótico e animado. Tendo como protagonistas as mulheres, a faixa chegou mesmo a ser usada em vídeos de apoio à campanha política de Kamala Harris, fazendo-a crescer nas plataformas de streaming.

“Red Wine Supernova” mostra também o potencial country-pop de Chappell, sendo uma das melhores músicas entre as catorze que compõem o álbum. O refrão evidencia o poder vocal da artista, que o explora de forma sensata e inteligente.

Não sóGood Luck, Babe fez sucesso, mas também “HOT TO GO!” teve o seu momento de destaque. A sétima faixa é uma confusão muito bem construída, tornando-a contagiante. É impossível ficar indiferente à música que faz lembrar alguns sucessos dos ABBA, sendo esta também muito dançante e animada. O seu refrão, que inspirou a famosa coreografia ao estilo de “Y.M.C.A.”, agarra o ouvinte que a decora devido à sua facilidade de cantarmos em uníssono. É, mais uma vez, motivo de parabenização o modo como Chappell usa a voz para ilustrar a forma como se sente.

“Oh mama I’m just having fun on the stage in my heels, it’s where I belong, down at the Pink Pony Club” (“Oh mamã, estou apenas a divertir-me no palco de saltos altos, é onde eu pertenço, ao Pink Pony Club”) é um dos versos que explica perfeitamente a mensagem da bonita “Pink Pony Club”, na qual Chappell confessa sentir-se confortável no mundo da arte, onde todos podem ser quem quiserem e divertirem-se à vontade.

Sendo uma das poucas músicas com direito a videoclipe, conta também com uma letra emocionante. A certo ponto, é possível apreciar um solo de uma guitarra-punk que complementa e simboliza uma fase tão forte e impactante como esta, sobretudo quando se lida com uma mãe conservadora tal como a dela.

Existem também outros pontos positivos no álbum, tal como o constante detalhado storytelling (que por vezes faz lembrar o de Taylor Swift) que se manifesta em faixas como “Casual”, “Coffee”, “Picture You”, “California” e a melancólica “Kaleidoscope”, onde reflete sobre o amor. Os vocais impressionam, tal como os versos que nos movem emocionalmente.

Em relação aos grandes momentos pop do álbum, não seria justo esquecermo-nos de “Super Graphic Ultra Modern Girl” ou de “My Kink Is Karma”, onde a artista deixa-se levar por um lado mais divertido e descontraído. É nestas canções que a produção de Daniel Nigro brilha mais, tendo uma maior oportunidade de exploração do que noutras músicas mais calmas e reflexivas.

No geral, The Rise and Fall of a Midwest Princess é, como alguns dizem uma pop perfection, não existindo espaço para o avanço de faixas devido à qualidade ótima de todas. É um álbum diverso, mas ainda assim coeso. É possível perdemo-nos nas faixas mais tristes e dançar desesperadamente nas mais mexidas. A influência do synth-pop da década de 80 é clara e confere uma beleza atemporal a esta coletânea.

Sem grande esforço e usando apenas a sua mais autêntica essência, Chappel Roan apresentou um dos melhores álbuns de 2023, que curiosamente apenas explodiu em 2024. Este fenómeno (ou devo dizer “femininomenon”) é a prova que nos faltava para o que tanto se diz: ao darmos preferência aos artistas mais conhecidos, pode-nos escapar obras maravilhosas de alguém que ainda não conhecemos.

Ainda que o título seja The Rise and Fall of a Midwest Princess (A Ascensão e a Queda de uma Princesa do Centro-Oeste), esperamos que a ascensão da princesa pop de Missouri continue e que a sua queda não esteja no horizonte.