Após desvairadas aventuras, o lendário Gato das Botas está na última das suas nove vidas! Sorte a sua, a ancestral Estrela dos Desejos está à espera de ser encontrada, capaz de conceder qualquer pedido que o seu possessor almejar. Mas será a vida eterna um desejo de tal modo benéfico? A promessa é trazer de volta o bandido de uns e o herói de outros para uma derradeira peripécia, que desafiará a vida e a morte. Com O Gato das Botas: O Último Desejo, a Dreamworks Animations recusou-se a desonrar o nostálgico sentimento oferecido pelas suas obras dos anos 2000 e 2010.
Apesar de devastado pela ideia da aproximação do seu uivante fim, o Gato das Botas não esgotou ainda o seu lote de casualidades imprevistas. O poder da procurada Estrela dos Desejos evidentemente atrairia a atenção de vários. O felino tem uma complicada jornada pela frente, com novos e velhos aliados, mas repleta de caras familiares dos mais queridos contos de fadas. Nesta montanha-russa de antagonistas,o Gato terá mais preocupações do que apenas impedir o fatídico destino de assustá-lo de morte.
A história segue um rumo bem definido, com um objetivo final igualmente evidente. Os vários personagens (em específico, os antagónicos) são maleados de modo a que nenhum seja tido como desperdiçado ou “a mais” no grande esquema do enredo. Uma honorável conquista para um filme que retrata vários planos de ação simultaneamente durante a sua maior parte, para juntá-los satisfatoriamente no ato final.
Além da narrativa revigorada o trabalho de animação atravessa a segunda e terceira dimensões. Em cada duelo, batalha ou emboscada, do início ao fim, os efeitos estilizados de animação 2D dão um charme único aos personagens já tão carismáticos. Para que não falte a cereja no topo, a banda sonora é habilitada de soar tanto a calma amistosa de novos laços, como a implacável ação dos mais intensos confrontos.
Fantasia nem sempre é colorida e O Último Desejo bem sabe como tratar o terror que persegue incessantemente o protagonista… a própria Morte. A temática e o personagem em si amplificam momentos sérios, talvez mesmo arrepiantes, considerando a faixa etária do público a que a obra é direcionada. Pânico e aflição exalam pelo ecrã, surpreendendo miúdos e graúdos. Neles confia o filme, para que endureçam o espírito durante apertadas instâncias. Ninguém surpreenderia se a Morte fosse vista perto dos restantes icónicos vilões do universo fantástico da Dreamworks.
Uma menção honorável dirige-se, com orgulho, ao desempenho da dobragem portuguesa. Os destaques não se encontram só no regresso de Paulo Oom para vocalizar a tão proeminente e audaciosa pronúncia do Gato das Botas, passada uma década da prequela. A caracterização da Caracolinhos e dos Ursos com um acentuado sotaque, típico da região madeirense, converte-se numa imagem de marca dos próprios personagens. A espetacular performance lusitana compete fielmente com as originais vozes americanas, pela pura habilidade de caracterizar cada figura animada com energia e primor.
O sentimento que prevalece é a nostalgia. Vemos este gato forasteiro renascer das cinzas e aproveitar o que será talvez a sua última vez a protagonizar tamanha peripécia. Diversas sequelas de animações não têm reunido a melhor reputação ultimamente, porém Gato das Botas: O Último Desejo age contra a maré com ousadia. Captura uma essência familiar e dá-lhe uma reviravolta única e original. Um apelo ao passado, com uma mensagem, ainda que não totalmente da sua autoria, maravilhosamente manifestada.
Título original: Puss in Boots: The Last Wish
Criação: Joel Crawford
Argumento: Paul Fisher, Tommy Swerdlow
Elenco: Antonio Banderas, Salma Hayek, John Mulaney
EUA
2022





