No passado sábado, dia 22 de março, a Casa das Artes de Arcos de Valdevez recebeu os Mão Morta para o encerramento da 23ª edição do Festival Sons de Vez. A banda bracarense trouxe consigo “Viva la Muerte”, o seu mais recente álbum, num espetáculo que foi muito mais do que um simples concerto: foi uma declaração política, uma experiência sensorial e um manifesto artístico.
Desde os primeiros momentos, ficou claro que aquela noite não deixaria ninguém indiferente. O concerto abriu com “Deus, Pátria, Autoridade”, e a sala mergulhou numa tensão quase palpável. Sob um foco de luz, Adolfo Luxúria Canibal dirigiu-se ao público e, com a sua voz inconfundível, lançou o desafio: “Boa noite. Bem-vindos ao espeto do fachismo.”
O alinhamento percorreu as faixas de “Viva la Muerte” e mergulhou em temas como a ascensão do ultranacionalismo, a proliferação de teorias da conspiração e o desprezo pelo conhecimento científico. A crítica ao autoritarismo fez-se ouvir de forma pungente, tanto nas palavras intensas quanto nos arranjos densos e envolventes da banda, criando uma experiência sonora que não apenas impactou, mas também provocou uma reflexão profunda.
A cada canção, os Mão Morta desenharam um cenário de inquietação, onde a música serviu de veículo para a reflexão. Apesar de um contacto direto mais contido entre banda e público, a mensagem foi claramente recebida. No momento final, a sala uniu-se num poderoso coro, entoando “Ninguém nasceu pra ser servil e morrer” com uma intensidade quase ritualística, marcando o clímax do espetáculo. De pé, em uníssono, o público fez daquelas palavras um grito coletivo, selando o concerto com uma ovação intensa e prolongada.
Esta tour não assinala apenas os 40 anos de carreira dos Mão Morta, mas também os 50 anos da Revolução de Abril, um marco incontornável que se refletiu na força da atuação. Entre som e silêncio, entre provocação e poesia, a banda voltou a afirmar o seu lugar como uma das vozes mais provocadoras e indispensáveis da música portuguesa.


