EPIC: The Musical é uma reinterpretação áudio da Odisseia de Homero. Tornou-se num fenómeno online, prezado pelas letras catchy e pelo enredo fascinante.

Jorge Rivera-Herrans

In Touch

Jorge Rivera-Herrans começou a desenvolver o projeto em 2019. Em 2022 o ator e compositor porto-riquenho lançou as primeiras Sagas, fragmentos do musical que retratam um episódio da Odisseia. No Natal de 2024, EPIC: The Ithaca Saga foi oferecida como presente. O EP final conseguiu estar ao mesmo nível de excelência que as Sagas anteriores, senão ultrapassá-lo.

Ithaca Saga abre com “The Challenge”, onde ocorre a primeira aparição da personagem Penélope (Anna Lea) no projeto. A faixa começa com o motivo musical usado em Sagas anteriores sempre que a personagem era mencionada. A associação frequente de melodias a figuras ou ideias temáticas em EPIC torna as canções altamente reconhecíveis e fáceis de aprender. No caso de “The Challenge” também provoca a estranha sensação de já antes se ter ouvido a faixa, mesmo que seja a primeira vez a ouvi-la.

A canção é de uma composição minuciosa, difícil de desgostar e até mesmo dilacerante para quem tem vindo a acompanhar a história. A voz de Anna Lea transmite a delicadeza e a solenidade de Penélope.

Há 20 anos que a personagem anseia, esperançosamente, pelo regresso de Odisseu (Jorge Rivera-Herrans) da Guerra de Troia. No entanto, vê-se obrigada a escolher um novo marido. A rainha de Ítaca não irá render-se tão facilmente e apresenta um desafio aos pretendentes: quem conseguir dobrar o arco de Odisseu e atirar uma flecha por 12 machados sem falhar ficará com o trono.

A tarefa é quase impossível de realizar, o que deixa os pretendentes fulos. Na segunda faixa, “Hold Them Down”, liderados por Antínoo (Ayron Alexander), os mesmos conspiram um plano horripilante de vingança. Ithaca Saga tem das canções mais macabras e assustadoras de todo o musical. Porém, por mais sombrias que as letras possam ser, o entusiasmo do elenco sobressai e é contagiante.

Em cada faixa são transmitidas as emoções internas das personagens lindamente. Mas aquilo em que mais se destacam, é na capacidade de “desenrolarem” a história. Todas as canções constituem um momento que move a trama desta nova versão da Odisseia.

EPIC não é uma adaptação fiel do clássico de Homero. Foram feitas alterações à história original, umas mais drásticas que outras. As mudanças ajudaram a perpetuar a lenda de Odisseu de maneira mais apelativa para as camadas jovens. Para além de que permitiram explorar temáticas em falta no poema épico. Rivera-Herrans tornou as relações entre as personagens mais complexas e inseriu dilemas morais. Será misericórdia sempre melhor do que impiedade? Poderá alguém benevolente tornar-se cruel?

Quando é que um homem se torna num monstro? Odisseu é assombrado por esta questão desde o começo da sua aventura. Infelizmente, ultrapassou esse limite.

A terceira faixa do EP é “Odysseus”. Ao longo da sua jornada, o protagonista aprende da pior forma que impiedade é misericórdia para consigo próprio. Quando regressa ao seu palácio e o vê profanado por brutamontes que conspiram destruir a família real, decide matar os pretendentes um a um, sem remorsos. O seu filho Telémaco (MICO, creditado como Miguel Veloso) e a deusa Atena (Teagan Earley) juntam-se-lhe na luta.

Por mais sadomasoquista que pareça, é extremamente satisfatório ouvir as flechadas fatais a serem lançadas, é a batida que dá corpo à música. A performance de Jorge Rivera-Herrans é insana; a sua voz contém as doses certas de mágoa e de raiva para transmitir o turbilhão interno da personagem. O coro a entoar o nome de Odisseu engrandece a figura do monstro para algo quase divino e torna a música “mais recheada”.

Após o massacre, resta uma dúvida: poderá a crueldade voltar a dar lugar à bondade? A resposta é sim, como é mostrada nas restantes faixas do EP.

Em “I Can’t Help But Wonder”, uma balada enternecedora, o protagonista pode celebrar por estar em casa. Finalmente, Odisseu abraça o filho e Telémaco conhece o pai.

Depois é chegada a última e a mais longa canção. “Would You Fall In Love With Me Again” é talvez a composição mais esmerada de todo o EP. O instrumental é belíssimo, repleto de referências discretas a músicas de outras Sagas.

Odisseu encontra-se com a razão que o motivou todos estes anos, tornada em desculpa pelos atos terríveis que cometeu pelo caminho. Penélope vê que a sua paciência valeu a pena. A reunião das personagens é convulsa, com emoções contrastantes a explodirem simultaneamente. A angústia de 20 anos perdidos mistura-se com a felicidade de “duas metades da mesma laranja” voltarem a estar juntas.

Mais uma vez, a performance de Anna Lea é motivo de destaque. Na parte final da canção, ao longo de sensivelmente 20 segundos, um por cada ano que as personagens estiveram separadas, executa brilhantemente uma repetição progressivamente mais intensa da palavra waiting. Uma pessoa não pode evitar emocionar-se, quer seja pela atuação ou pela ponte instrumental épica que se segue.

EPIC: The Musical merece a popularidade que ganhou. É um projeto imensamente pormenorizado, a cada nova audição integral descobrem-se sempre mais detalhes. É de uma mestria astronómica para alguém “novato” como Rivera-Herrans. A narrativa atemporal aqui contada é de bastante qualidade. Por mais vezes que se ouçam as músicas, nunca se torna cansativo e quer-se repetir tudo de novo. Simplesmente irresistível!

Ithaca Saga é um ótimo final para o musical, melhor pode não ser exequível. Como escuta isolada, é igualmente excelente, se bem que o impacto emocional não seja tão forte. É recomendável ter algum conhecimento sobre a trama.

Pode parecer cliché que a frase I love you seja a última coisa a ser cantada em todo o projeto. Honestamente, foi a decisão mais acertada e lógica a ser tomada. Aquilo que motivou Odisseu desde a Guerra de Troia foi a sua família, só faz sentido que a história termine com a moral de que o amor pode devolver alguma humanidade a um monstro.