A nova versão da Branca de Neve, dirigido por Mark Webb, chegou às telas com promessas de modernização e de representatividade. Contudo, o que deveria ser uma celebração do clássico tornou-se uma tentativa desastrosa de reconstruir uma obra que, apesar da sua época, possuía a sua própria beleza e valor simbólico.

O filme foi alvo de polémicas antes do seu lançamento, especialmente com o descarte da essência da Branca de Neve original, inspirada na história dos Irmãos Grimm. A protagonista (Rachel Zegler) delicada e maternal, agora ganha traços de liderança, quase autoritários. É visível na sua relação com os anões, designados na narrativa como “criaturas mágicas”, que nem são mencionados no título da obra como o antigo Branca de Neve e os Sete Anões (1937). Além disso, os anões parecem deslocados e sem aprofundamento.

No clássico, os serviços domésticos não são uma obrigação, mas uma escolha: a protagonista cuida das tarefas da casa e dos anões como se fossem uma família. Nesta nova versão, isto é distorcido por ser considerado ultrapassado e indesejado atualmente, quase como se a feminilidade clássica fosse algo a ser corrigido. Nem todas as mulheres querem ser uma líder ou uma guerreira. Muitas vêem-se em figuras como a Branca de Neve – amorosas, delicadas e inocentes, que desejam viver um amor bonito – e isso também é válido.

Em 2022, Peter Dinklage, conhecido por projetos como Game of Thrones (2011-2019) e que tem nanismo, manifestou, no podcast “WTF” de Marc Maron, o seu desconforto com como os anões foram retratados no filme, considerando um retrógrado à atualidade.

A Disney, pretendendo promover diversidade, acabou por refletir exclusão. A direção contratou o ator Martin Klebba, que também possui nanismo, e usou o seu rosto para replicá-lo digitalmente nos restantes personagens, contribuindo para a sensação de artificialidade. As pessoas com nanismo, que raramente têm papéis de destaque em Hollywood, foram apagadas.

O problema de Branca de Neve não é a mudança em si, mas o abandono completo da fantasia que caracterizava a alma do original e que marcou a infância de muitos. A obra esquece-se de que várias pessoas, incluindo feministas, ainda gostam de histórias clássicas e inocentes. Nem todos os filmes precisam desafiar convenções sociais.