Ouvir música é muito mais que uma escuta passiva de instrumentos que se conectam melodicamente. É mais do que assistir a um namoro efusivo entre as letras, os ritmos e as vibrações. É participar ativamente nesse momento, até que a experiência culmine na exteriorização das nossas emoções, que até então estavam reféns dentro de nós. Ouvir música é a compreensão profunda dos nossos sentimentos, por nos vermos espelhados nos sentimentos dos outros, dos artistas. A experiência de ouvir música é tudo isto. E mais do que tudo isto, é a sensação de ouvir música ao vivo.
É um novo patamar! Tudo – desde a aquisição dos bilhetes, ao dia do concerto – é uma etapa importante na preparação enquanto público, que se quer participativo e envolvido no ambiente artístico. Primeiro, compramos o bilhete e, a partir daí, começa o processo de mentalização. Não acreditamos que vamos ver um dos nossos artistas favoritos ao vivo, mesmo que isso tenha significado uma extração monetária considerável da nossa conta bancária. Seguem-se horas e horas a ouvir os mesmos álbuns. Queremos, forçosamente, saber as letras, as pausas, as respirações. Ouvimos tantas, mas tantas vezes…voltamos a ouvir, voltamos a cantar, voltamos a sentir tudo de novo. Insistimos, porque podemos fazer melhor. Continuamos, porque é com entusiasmo que fazemos toda esta preparação. O nosso Spotify está agora inundado com todas as obras musicais de um só artista e continua a contar as horas que passamos a ouvi-lo.
E é perdidos nesta preparação que o dia do concerto chega. É hora de escolher os outfits! Há um dress code imposto, ou consensualmente sabido, para cada artista. Tal aconteceu, por exemplo, com a Eras Tour da Taylor Swift, onde cada fã foi vestido de acordo com uma “era”; também com os Arctic Monkeys onde o pessoal adota um estilo mais retro; ou ainda com o mais recente álbum de Miguel Luz que levou todos a compor um look de “Ganga com Ganga”.
No caminho até ao concerto pensamos na setlist: “qual será a música que vai abrir? Qual será a que vai fechar?”. Chegamos ao recinto. Preparados para o momento para o qual esperamos durante tanto tempo?
Cantamos a plenos pulmões; mimicamos o cantor, os seus movimentos, as suas pausas; sentimos o ritmo a ecoar no peito; deixamo-nos cegar pelas luzes; envolvemo-nos na atmosfera vibrante…
Calma! Não seremos também nós artistas? Artistas que podem desafinar, que podem não ter coragem sequer de subir a um palco, que podem nem sequer saber as notas, os acordes, a ciência das partituras – mas ainda assim artistas. Artistas de nós mesmos. Artistas que sentem a música (ou outro tipo de arte) e usam-na como um veículo de expressão de sentimentos, ideias, pensamentos.
“A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação”, como dizia Eça de Queirós. É a transformação da realidade através da nossa interpretação pessoal, da nossa criatividade. Portanto, na vida, sejamos artistas! Daqueles que viajam incessantemente para dentro de si à procura de uma compreensão profunda do seu ser, daqueles que transformam essa compreensão (ou a inevitável incompreensão) em algo exterior: numa peça palpável; numa música desconcertante; num livro volumoso…
Na vida sê artista, transforma-te em arte, sem medo de ser quem és. Vê a tua vida como a preparação para um concerto, onde te aprimoras a cada dia que passa e investes na tua existência. Ensaia os teus próprios passos, toma as tuas decisões, encontra o teu ritmo e expressa as tuas emoções. O espetáculo final será maravilhoso, mas o caminho percorrido não fica nada atrás.


