Billie Holiday é um dos maiores nomes do jazz, do swing e do blues. A 7 de abril é celebrado o 110.º aniversário da cantora norte-americana.
Lady Day, tal como era apelidada, ficou conhecida pela emoção que transmitia na voz e pela intensidade do seu olhar ao atuar. A sua habilidade de improvisar melodias e a sua noção de métrica foram revolucionárias na música jazz.
Eleanora Fagan nasceu a 7 de abril de 1915, em Filadélfia. O pai, Clarence Halliday, abandonou-a para seguir uma carreira musical e a mãe, Sarah Julia Fagan, tornou-se na única fonte de rendimento da família.
Holiday cresceu em Maryland, aos cuidados de familiares e conhecidos. Faltava frequentemente à escola. Por causa disso, foi enviada para um reformatório católico, a House of the Good Shepherd, em 1924, onde sofreu abusos mentais. Holiday voltou a ser enviada para o reformatório, em 1926, desta vez após ter sido abusada sexualmente por um vizinho. Aos 11 anos abandonou os estudos e aos 12 anos começou a trabalhar como moça de recados num bordel e a limpar casas.
Em 1929, Holiday e a mãe viviam em Harlem, Nova Iorque. Foi aí que Eleanora Fagan começou a cantar em bares, mesmo sem qualquer formação musical. Nessa altura, criou o nome artístico, Billie Holiday, em homenagem a uma atriz de que gostava, Billie Dove, e ao seu pai. Numa das suas atuações em Harlem, Holiday chamou a atenção do produtor musical, John Hammond, que lhe garantiu o primeiro contrato em 1933, aos 18 anos.
Face a uma América do Norte em plena segregação racial, Holiday conseguiu chegar ao estrelato com os seus covers e composições originais. Foi a primeira mulher afro-americana em tour ao lado de uma banda de pessoas brancas, com a orquestra de Artie Shaw. Algumas das suas gravações mais populares são “What a Little Moonlight Can Do” (1935), “Carelessly” (1937), “God Bless the Child” (1941), “I’ll Be Seeing You” (1944), “Lover Man” (1945) e “Embraceable You” (1957).
O maior hit de Holiday é a canção “Strange Fruit” (1939). Nos espetáculos de Lady Day, virou tradição este tema fechar a setlist. O poema, escrito por Abel Meeropol, um professor de ascendência judia, fala sobre o linchamento de pessoas negras, uma prática comum na época.
“Strange Fruit” é considerada a primeira canção de protesto da luta pelos direitos civis, o que não agradou às elites poderosas. Em 1939, Holiday recebeu uma carta de Henry Aslinger, chefe da Federal Bureau of Narcotics, a proibi-la de cantar o êxito, ordem que ignorou.
Holiday era viciada em substâncias, como álcool e heroína. Em 1947, foi presa por posse de drogas. Ao fim de um ano, após cumprir a pena, ficou proibida de atuar em espaços onde fosse vendido álcool. Mesmo com esse impedimento, conseguiu marcar concertos e esgotou salas de espetáculo como o Carnegie Hall.
Voltou a ter uma recaída e, em 1949, foi presa mais uma vez por posse de estupefacientes. O último álbum de estúdio que gravou, Lady in Satin, lançado em 1958, recebeu críticas mistas. A voz de Lady Day tornara-se rouca e já não atingia as mesmas notas que outrora.
No início de 1959, Holiday foi diagnosticada com cirrose hepática. Pouco tempo depois, a 31 de maio de 1959, foi admitida no Metropolitan Hospital of New York. Enquanto estava internada, agentes do Federal Bureau of Narcotics fizeram uma rusga ao seu quarto e encontraram heroína. Holiday ficou em prisão domiciliária, algemada à cama de hospital. Devido a ordens judiciais, não foi permitido administrar-lhe fármacos que poderiam a ter salvo.
Billie Holiday faleceu aos 44 anos, na manhã de 17 de julho de 1959, vítima de insuficiência cardíaca provocada pela cirrose. O funeral foi realizado no dia 21 de julho de 1959, na Igreja St. Paul the Apostle, em Manhattan. Está sepultada no Cemitério Saint Raymond, no Bronx.
Lady Day gostava muito de cães. Adorava ouvir os discos de Louis Armstrong e de Bessie Smith. Até onde se sabe, Billie Holiday casou três vezes. Em todos os matrimónios ocorreram agressões e abusos. O seu último marido, Louis McKay, foi o seu único herdeiro. Também teve amantes, homens e mulheres. Um dos seus casos mais conhecidos foi com a atriz Tallulah Bankhead, durante os anos 30.
Holiday venceu quatro Grammys postumamente. Foi introduzida no Hall of Fame do Grammy, no National Rhythm & Blues Hall of Fame e no Rock & Roll Hall of Fame. Em 2002, a sua versão de “Strange Fruit” foi selecionada para preservação na Biblioteca do Congresso Americano.
Em 1956, foi publicada a autobiografia, Lady Sings the Blues, escrita em parceria com William Dufty. O livro serviu de inspiração à cinebiografia de 1972, em que Diana Ross interpreta Holiday. Desde então, foram realizados mais filmes e documentários sobre a vida de Lady Day, sendo o mais recente Estados Unidos V.S. Billie Holiday (2021). Outras homenagens à cantora são a canção Angel of Harlem (1988) da banda U2 e a menção ao álbum Lady in Satin no romance Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (2017) de Taylor Jenkins Reid.
Billie Holiday é uma figura mítica, repleta de rumores em torno da sua infância, da sua sexualidade e da sua morte. Mesmo com uma vida curta e repleta de adversidades, a Lady em Cetim deixou um impacto sem precedentes na cultura e sociedade norte-americanas.
Cento e dez anos depois do nascimento de Holiday, as pessoas continuam a cantar temas de amor que popularizou. Mais de 65 anos após a sua morte, continua a instaurar o silêncio quando começa a tocar uma certa canção sobre homens negros enforcados em árvores frutíferas.



