Quando foi a última vez que esteve realmente aborrecido? Sem qualquer forma de escape para a mente, só os seus pensamentos e uma parede branca à frente. Há uns dias, estava com pouca bateria no telemóvel e precisava de preservar a mesma. No entanto dei por mim, sentado na paragem do autocarro a olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Senti-me, pela primeira vez em bastante tempo, realmente aborrecido.

Não é surpresa nenhuma que vivemos numa era digital em que grande parte do nosso dia é passado a olhar para ecrãs, seja por motivos pessoais, de trabalho ou até mesmo lazer. No entanto, este último ponto é talvez o que ocupa mais tempo de ecrã das pessoas atualmente.

Segundo dados da GWI, em Portugal, em computadores, tablets e telemóveis, os portugueses acima de 16 anos passam em média, cerca de 7 horas e 33 minutos nestes dispositivos, sendo 3h e 38 minutos desse tempo são passados apenas no telemóvel.

Poderíamos afirmar que os livros ou os mp3 por sua vez também retiraram muitas cabeças do aborrecimento em determinados tempos, mas nenhum destes conseguiu captar a atenção e prender alguém tanto tempo como o smartphone.

Cada vez mais somos bombardeados com conteúdos rápidos que procuram captar a nossa atenção nos primeiros segundos que os vemos. Conteúdos saturados de cor, som e transições rápidas, que muitas vezes não têm nenhuma função a não ser prender a nossa atenção.

No entanto, existe quem ainda tente nadar contra esta corrente. Existe uma crescente maré de pessoas que abdicam de utilizar os mais novos e recentes iPhones e regressam aos telemóveis de teclado T9, os sagrados flip-phones ou até mesmo telefones fixos em casa.

No seu último vídeo, Eddy Burback, um famoso youtuber americano, ataca esta questão da relação amor/ódio pelo seu telemóvel, onde ao longo de um mês fechou o mesmo num cofre e mostrou os seus desafios em viver apenas com um telefone fixo na sua casa. A conclusão é que realmente existe alguns impasses em não ter um smartphone nos dias de hoje, onde cada vez mais utilizamos este como uma ferramenta para realizar pagamentos, ver direções na rua ou até digitalizar documentos, mas também vemos a quantidade de tempo que passamos no telemóvel e o quanto desse tempo é que podemos utilizar para aprendermos algo novo ou simplesmente estarmos mais presentes no ambiente à nossa volta, com aqueles que mais gostamos.

Não quero que este editorial seja visto como um ataque à evolução do digital, mas sim como algo que possa ajudar a refletir sobre o nosso intencionalismo com os estes dispositivos. A nossa atenção e as nossas interações são cada vez mais utilizadas a troco de lucro na internet. Os nossos valores e crenças cada vez mais são alteradas por reels de pessoas que nos são sugeridas por um algoritmo.

No final de contas o importante é haver equilíbrio, utilizarmos as novas tecnologias a nosso favor e sermos mais críticos e intencionais quanto ao tempo e uso que lhes damos. Muitas pessoas da minha idade já ouviram a célebre frase dos nossos pais “o problema é esse maldito telemóvel”. Sem o saberem, tinham razão.