Na noite de estreia, Tosga e Pelle receberam quatro sessões que cruzaram tecnologia, saúde, nutrição e ciência.
Durante três dias, entre 19 e 21 de maio, Braga foi uma das cidades portuguesas a acolher o Pint of Science 2025, o maior festival internacional de comunicação de ciência. O conceito é simples: tirar os cientistas e investigadores dos laboratórios e levá-los para os bares, de modo a partilharem o seu trabalho com o público num ambiente descontraído.
A primeira noite do festival, a 19 de maio, foi marcada por quatro apresentações, divididas entre dois espaços da cidade: Tosga e Pelle. Os temas passaram por robótica, inteligência artificial, biosinais e alimentos funcionais. As apresentações e explicações foram acessíveis, bem humoradas e tiveram espaço para questões e debate.
Além das sessões, os intervalos entre elas foram animados com jogos dinâmicos, que colocaram à prova o conhecimento e o espírito de equipa do público. Os participantes tiveram oportunidade de ganhar prémios como entradas para um escape room, bilhetes para sessões de laser tag e outras experiências. No final do evento, todos os presentes foram surpreendidos com um pin comemorativo e uma base de cortiça para copos, como forma simbólica de agradecer a participação.
A sessão das 19h00, no Tosga, teve como mote “Neurónios de Aço” e começou com Emanuel Sousa, investigador e chefe do Departamento de Human Technology Interaction & Robotics (HTIR). Partindo da questão “Robôs que nos substituem? E se, em vez disso, nos fizerem melhores?”, o orador refletiu sobre a interação entre humanos e sistemas automáticos.
Emanuel Sousa defendeu o uso de sistemas de controlo partilhado entre humanos e máquinas. Apresentou o projeto Produtec, que envolve empilhadores industriais operados remotamente com assistência inteligente. Para o investigador, o ideal é unir “o melhor dos dois mundos”: eficiência automatizada e julgamento humano.
Na mesma sessão, João Almeida Rodrigues, engenheiro e investigador, falou sobre biosinais – os sinais elétricos, químicos e mecânicos que o nosso corpo emite constantemente através do coração, cérebro, músculos ou pele. Na apresentação “O que dizem os nossos (Bio)Sinais?”, explicou que estes sinais podem ser recolhidos por sensores e interpretados por algoritmos de inteligência artificial. Podem, ainda, ser usados para aplicações diversas, como a monitorização e previsão de estados de saúde ou o controlo de computadores com o corpo. O especialista demonstrou como os biosinais podem ser transformados em som. Para tal, usou um sistema onde as flexões e as extensões do pulso produzem notas distintas.
Segundo João Almeida Rodrigues, esta área representa uma nova era na interação humano-máquina. “O corpo está sempre a comunicar e o desafio é aprender a escutá-lo”, afirmou. Explicou também que a tecnologia já começa a decifrar essas mensagens e assegurou que já é possível “ensinar um computador a reconhecer o que fazemos apenas com base na nossa atividade física”.
Às 21h00, a ciência mudou-se para o bar Pelle, com a sessão “Superalimentos em Ação”. A primeira apresentação ficou a cargo de João Araújo, doutorando em Ciências e Tecnologia Alimentar, que falou sobre os “Alimentos do Futuro – da técnica à funcionalidade”.
Com entusiasmo e sentido prático, demonstrou como os alimentos funcionais (enriquecidos com compostos benéficos) podem ser usados para prevenção de doenças ou personalização de dietas. Para além disso, destacou o potencial da impressão 3D: “podemos desenhar alimentos adaptados à textura, ao perfil nutricional e até à capacidade de mastigação de cada pessoa”. “Isto pode ser essencial para idosos, doentes ou até missões espaciais”, acrescentou.
O especialista mostrou exemplos de géis de cenoura impressos em 3D, reforçando que o design influencia a libertação dos compostos bioativos no organismo. Na ótica de João Araújo, o objetivo é criar alimentos que sejam “mais do que nutrição” e que “tenham também função terapêutica”.
A noite terminou com a apresentação de Marisol Dias, investigadora dedicada ao desenvolvimento de alimentos para o controlo da diabetes tipo dois. Na palestra “Bolachas Funcionais: uma doce liberdade para diabéticos”, revelou como técnicas de micro e nanoencapsulamento permitem libertar, de forma controlada, compostos como o resveratrol ou a taumatina, com benefícios para a saúde. Através destas tecnologias, é possível criar bolachas que para além de alimentarem, ajudam a prevenir ou controlar doenças.
Criado em 2012 no Reino Unido e com edições em Portugal desde 2018, o Pint of Science decorre atualmente em mais de 25 países e 10 cidades portuguesas. Em Braga, o festival terminou esta quarta-feira, 21 de maio, depois de três noites de casa cheia. Seja com um volante que resiste ao erro, sensores que “ouvem” os músculos, alimentos impressos em 3D ou bolachas que controlam a glicemia, a mensagem é clara: a ciência está ao nosso lado, em qualquer momento ou lugar.


