O mais recente projeto de Carol Biazin está completo. Após o lançamento da primeira parte em agosto de 2024, foram apresentadas mais 12 músicas para “No Escuro, Quem É Você?” que mantiveram a satisfação das dez iniciais.

Nakombina

“Quem É Você?” continua a explorar a ideia do “eu” interior. No entanto, acrescenta discussões e críticas ao mundo moderno, cada vez mais digital e cada vez mais desligado das coisas simples que importam. Por entre trocadilhos e jogos de palavras, comenta-se sobre o vício nos smartphones. Sonoramente, são utilizados instrumentos de sopro, com especial atenção ao saxofone. Esta metade do álbum é mais experimental em comparação com “No Escuro,”.

As três faixas de abertura demonstram-no sem delongas. Em “SOU DO MUNDO” o trompete sincroniza com a batida eletrónica. O interlúdio “Aurora”, de produção um pouco mais simples, porém contagiante, cria uma transição entre a primeira canção e a terceira.

“Dilemas da vida moderna” começa com agressividade. Carol Biazin questiona como se pode equilibrar a vida profissional com a pessoal. No entanto, assim que vê a pessoa amada, esquece os seus problemas. Na maior parte da letra, são mencionadas escapatórias à rotina e à confusão das metrópoles. Quando o pós-refrão chega, a música transforma-se e o instrumental “soa a verão”, através de barulhos de ondas e de gaivotas. É quase como se Biazin estivesse a convidar o ouvinte para se levantar da secretária e dançar, para fugir do quotidiano e ir-se divertir na praia.

A quarta canção, “Que Pecado!”, foge um pouco do conceito inicialmente apresentado e serve um pop-rap chiclete. O grande destaque é a participação especial de Ebony que lança barras de forma certeira. Biazin assume o lugar da conselheira que escuta e motiva moralmente quem tem problemas amorosos. No entanto, nas restantes faixas, volta a ocupar o papel de protagonista.

Na quinta faixa, Biazin declara-se novamente à sua “moça bonita”, cantando que só a quer amar sem culpa, sem ter de prestar esclarecimentos a mais ninguém. O ritmo house torna a música ótima de ouvir num final de dia. “TE AMO SEM CULPA!” está a tornar-se num hino da comunidade LGBTQIA+ e com toda a razão: é uma música que não deve ser cantada, mas gritada, tal como a estilização do título sugere.

De seguida, é introduzida uma parte de “Quem É Você?” ritmicamente mais lenta. Biazin aproxima-se um pouco ao R&B, com influência de ritmos latinos, como a bachata. Em “AMAReSó” e em “Códigos” são feitas referências à metade “No Escuro,”, só que estão um pouco distorcidas – uma tática simples, mas de génio. Carol Biazin canta “como é bom se apaixonar”, ao invés de “(Não) Quero Me Apaixonar”, e como vê um lugar de conforto na pessoa amada, negando a expressão “porto inseguro” presente em “Amor Traumatizado”.

Uma canção que surpreende é “um amor calmo”. A distorção aplicada na voz de Biazin prende o ouvinte logo nos primeiros instantes. A letra é fantástica e a produção ainda o é mais. Há um verso que vale a pena assinalar – “quero o tédio dos amores que dão certo”. A mensagem transmitida na música pode ser resumida com este fragmento.

Com as faixas derradeiras de “Quem É Você?”, a cantora brasileira explora conceitos mais introspetivos. Biazin analisa ao de leve a sua personalidade em “Sou tão insegura” e em “BAGUNÇA”.  As duas músicas têm harmonias bonitas, mas não são muito extraordinárias.

Já em “as coisas mais simples”, são feitas reflexões sobre o sentido da vida por entre efeitos de voz interessantes. A cantora conclui que o lado mais simples da vida é o mais difícil de viver e, aliás, não é feito de objetos táteis. Dançar, ver um filme, ouvir música, ter um almoço de domingo em família, de acordo com Biazin, são aquilo que tornam a existência na Terra mais gratificante.

Na última canção, “terra de ninguém”, com a participação de Vitor Kley, são cantados questionamentos sobre a condição humana. Através de letras simples em forma, mas complexas em conteúdo, os artistas afirmam que “a gente pensa demais, a gente sente de menos”, que não vale a pena lutar por bens materiais e ser-se egocêntrico. Pelo contrário, dever-se-ia procurar criar laços com as pessoas e marcar positivamente quem nos rodeia.

Nas plataformas digitais, o mais recente álbum de Biazin é constituído por dois discos, sendo que o segundo contém os temas da primeira parte. Ao ouvir pela ordem apresentada, a cada nova faixa a lírica torna-se mais profunda e pessoal. A componente visual reflete isso mesmo; o amarelo torna-se num azul-escuro, ou seja, vamos da superfície do “eu” até ao seu centro. Carol Biazin mostra progressivamente quem é no escuro.

No entanto, também é interessante começar pelo Disco 2 e terminar com o Disco 1. Assim, observa-se a evolução de alguém que não queria se apaixonar para alguém, que só quer um amor calmo. Vê-se uma menina do interior, que sonhava ir para a cidade começar a desejar voltar para a sua terra e escapar à rotina. Com esta ordem, o escuro da noite cheia de dúvidas é substituído pela luz de mais um dia esclarecedor. O acústico melancólico metamorfiza-se no som estridente do saxofone, sem, no entanto, perder a essência – o trap e as batidas do grave estão sempre presentes.

Ouvir dois discos com linguagens consideravelmente diferentes pode provocar cansaço ou confusão. Mas, lá no fundo, acabam por se encaixar um no outro e serem agradáveis de escutar. Na sua globalidade, “No Escuro, Quem É Você?” é um bom projeto, de uma lírica simples, mas profunda. Não tivemos prestações vocais memoráveis, algo que Carol Biazin é capaz de alcançar, porque aquilo que mais importa são as mensagens que se querem transmitir e não dar um “espetáculo”.