A data faz alusão ao aniversário da Tomada da Bastilha e dá importância a um direito muitas vezes esquecido.

O Dia Mundial da Liberdade de Pensamento é comemorado anualmente a 14 de julho. Consagrada como um princípio fundamental pela Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em 1948, a liberdade de pensamento diz respeito, também, à liberdade de consciência e religião.

Há 236 anos, a Tomada da Bastilha deu início à Revolução Francesa neste dia. Um dos marcos mais importantes para a liberdade individual do ser humano e a luta contra a censura dos regimes autoritários é, agora, também recordado através desta efeméride. Contudo, a realidade é que a liberdade de pensamento continua longe de ser um direito de todos. O ComUM conversou com Catarina Gaio, psicóloga júnior de 24 anos, para saber mais sobre o que ainda falta conquistar.

Formada em Psicologia da Educação e do Desenvolvimento Humano pela Universidade do Porto, Catarina escolheu a área graças à curiosidade pelo “trabalho mais promocional e preventivo” realizado a partir da educação. De momento, trabalha na área da orientação vocacional com adolescentes em fase de transição e adultos em gestão ou mudança de carreira. “Aqui, procuro fomentar o autoconhecimento e conhecimento do mundo dos meus clientes para que possam tomar decisões conscientes e confiantes”, indica.

Relativamente à liberdade de pensamento, a jovem psicóloga entende-a como sendo “aquilo que melhor pode definir o que é ser livre”. Segundo as suas palavras, “ninguém pode ditar aquilo que pensamos, nem mesmo, muitas vezes, nós próprios. Por mais que possam tentar impingir algum pensamento/ideia, somos nós que definimos por onde queremos andar na nossa cabeça. Não há limites para aquilo que possamos pensar”.

No seu emprego, Catarina Gaio apercebe-se das limitações que a falta de liberdade de pensamento pode trazer no desenvolvimento e na educação dos jovens, destacando a influência dos pais, mas, principalmente, da escola e da sociedade. “Ainda são muito veiculadas ideias erradas (e.g., humanidades é para quem não tem tantas capacidades/quer fugir à matemática e veda acesso a percursos futuros) que moldam a forma de pensar no futuro e limitam os adolescentes”, partilha.

Mas não só no contexto da orientação vocacional se verifica esta tendência. Para Gaio, “o contexto escolar pouco promove que os jovens pensem criticamente sobre o que veem, leem e assimilam”. A seu ver, isto tem consequências graves, como a falta de autonomia para certas tarefas ou a adoção dos pensamentos de outras pessoas, auxiliando, como refere, “fenómenos como aqueles que temos presenciado atualmente”, de que é exemplo a ascensão da extrema direita.

Quando questionada sobre a possibilidade da liberdade de pensamento ser frequentemente confundida com a liberdade de expressão e imprensa, a psicóloga acredita que “tudo anda de mão dada”. Sublinha que “se limitarmos a liberdade de expressão, limitamos o questionamento sobre o que ouvimos, que ajuda a moldar o nosso pensamento crítico. Por sua vez, limitando a forma como pensamos, também ficaremos limitados naquilo que vamos exprimir.” Contudo, recorda a importância de não tomar uma liberdade como ilimitada. “Posso ter uma opinião sobre alguém, por exemplo, mas não é por ter liberdade de a exprimir que a vou dar se, ainda para mais, esta magoar/prejudicar o outro”, refere.

Catarina Gaio destaca as Três Marias como umas das mais importantes personalidades que lutaram pela liberdade de pensamento. “Um exemplo óbvio tendo em conta que desafiaram as restrições impostas pela ditadura”, sugere. Gaio inspira-se pela coragem com que expuseram “o que achavam errado numa altura onde existia não só um constrangimento da liberdade de expressão e pensamento, com represálias graves, como uma imposição de qual o pensamento a seguir e do que exprimir”. A sua obra Novas Cartas Portuguesas, segundo a psicóloga, continua bastante atual.

Por fim, Catarina foi questionada sobre se sente que a Humanidade ainda está longe de consagrar a liberdade de pensamento como um direito verdadeiramente absoluto. Apresenta dúvidas sobre o assunto, visto que este tipo de liberdade “é algo que ninguém pode ditar diretamente, mas que sofre bastantes influências”. Não obstante, a jovem psicóloga diria que ”na teoria, este é um direito consagrado, mas que na prática não são criadas as condições para que exista uma verdadeira e absoluta liberdade de pensamento (assim como outros direitos)”.