“Too Much” é uma série criada por Lena Dunham e Luis Felber, seu marido, lançada na Netflix em julho de 2025. A história segue Jessica, uma mulher de trinta e poucos anos que, após um desgosto amoroso, troca Brooklyn por Londres numa tentativa de recomeço. Ainda obcecada pelo ex-namorado e pela nova namorada dele, documenta obsessivamente os seus desabafos num telemóvel enquanto tenta construir uma nova vida.
Logo no primeiro episódio, a estética salta à vista, com uma cinematografia reconfortante, cheia de cores pastel e luzes quentes. A escolha das músicas é, de facto, notável, “Too Much” tem sempre a faixa certa para cada cena. Há uma pinta de fantasia no modo como a série explora o mundo interior de Jessica, que constantemente se imagina dentro de comédias românticas britânicas. De repente, as personagens à sua volta surgem em figurinos vitorianos. A série está repleta de pequenas fantasias privadas, em que a vida é vista como se fosse um filme. Esses momentos dizem muito sobre a forma como Jessica romantiza tudo o que vive.
A própria personagem principal não é fácil de digerir. Jessica é emocionalmente caótica, intensa e, por vezes, irritante. O título da série avisa desde o início: ela é “too much”. Megan Stalter exagera expressões faciais e gestos num estilo que pode afastar quem procura mais realismo. Mas quando a série abraça o que há de estranho nela, torna-se surpreendentemente honesta.
Há episódios que se destacam pela simplicidade, como quando Jessica e Felix, o seu novo namorado britânico, apenas ouvem música juntos. Ele é um músico indie que prefere uma vida boémia e é recentemente sóbrio. Outros, como o quinto episódio, mergulham em territórios mais sombrios. Nele, acompanhamos Jessica a ser alienada pelo grupo de amigos do namorado, a entrar numa viagem psicadélica de ketamina e a revisitar um relacionamento antigo, marcado por manipulação e abandono. A história avança entre memórias fragmentadas e sentimentos contraditórios, até culminar num momento de absoluta solidão, em que Jessica realiza um aborto, sem acompanhante. É cruel e silencioso, e talvez o ponto alto da série.
O elenco de apoio também merece destaque. Naomi Watts tem um momento brilhante numa cena de jantar tensa e reveladora. Há ainda espaço para algumas participações especiais inesperadas que enriquecem o universo da série, como Kit Harrington, Stephen Fry e até Carlos O’Connell, da banda irlandesa Fontaines D.C.
Nem todos os episódios têm a mesma força, mas há uma consistência emocional que percorre toda a temporada. Os nomes dos episódios são trocadilhos com comédias românticas famosas e há uma leveza constante, mesmo nos momentos mais dolorosos. Mas “Too Much” não é sobre resolução: é sobre o processo, sobre o caos, sobre a tentativa de ser amada e de se amar a si mesma.
No fundo, é fácil não gostar desta série. Jessica pode parecer insuportável, a narrativa dispersa e o tom demasiado teatral. Mas há algo de profundamente pessoal nesta história que faz com que, para quem se deixa levar, a experiência se torne íntima. “Too Much” não tenta agradar a todos.
Título original: Too Much
Criadores: Lena Dunham e Luis Felber
Elenco: Megan Stalter, Will Sharpe e Michael Zegen
Reino Unido
2025





