Parece improvável que bandas fictícias de um filme infanto-juvenil se tornem em fenômenos da música pop. Mas as HUNTR/X e os Saja Boys provam o contrário. As suas canções foram das mais ouvidas neste verão. Contudo, os charts não refletem os problemas presentes na banda sonora de K-Pop Demon Hunters (KDH).

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A mais recente película da Sony Pictures Animation e da Netflix acompanha as HUNTR/X, um grupo de estrelas coreanas que, quando não lotam estádios, lutam contra demónios. Rumi, Zoey e Mira devem proteger o mundo através do poder da música. No entanto, a sua missão é dificultada quando surge uma boyband secretamente formada por demónios. Para as canções, as artistas EJAE, AUDREY NUNA e REI AMI emprestam as suas vozes às protagonistas. O líder do grupo antagonista, Jinu, é interpretado por Andrew Choi nas partes musicais.

Em How It’s Done é introduzido o grupo HUNTR/X. Que forma bombástica de começar a história! Inicialmente, a canção parece “mansinha”, com algumas notas entoadas por uma flauta. De repente, essas notas transformam-se numa música eletrizante. O flow da entrega vocal “caça” a atenção do ouvinte. São feitas mudanças no ritmo, o que torna esta faixa hipnotizante e dinâmica.

É notório que foram aplicados efeitos consideravelmente pesados às vozes nesta canção e também nas restantes. Claro, são auxílios compreensíveis para atingir as notas graves e extremamente agudas das composições, porém, poderiam ter passado despercebidos. As vozes acabam por soar um tanto “robotizadas”.

A canção seguinte, Soda Pop, é o debut dos Saja Boys. É leve e com um refrão “chiclete”. Só que, para a segunda aparição do grupo, em Your Idol, ocorreu uma mudança drástica na atmosfera. Através desta música sombria e sedutora, cuja base é uma sample do cântico, Deus Irae, os Saja Boys admitem as suas verdadeiras intenções.

A instrumentalização é um dos grandes pilares da banda sonora. Destaca-se o tema Takedown com a sua batida fortíssima, que sabe surpreender o ouvinte, ao subverter as suas expectativas. Sem dúvidas, os instrumentais e as prestações vocais são o melhor de KDH. Pena a lírica não chegar a este nível. Aliás, as letras tendem a ser o ponto fraco do projeto.

Todas as músicas das HUNTR/X mencionam a caça aos demónios sob a forma de versos genéricos. É uma maneira de criar coesão entre as faixas, mas também faz com que o texto seja mais do mesmo. Talvez por escaparem um pouco desta trajetória é que os temas Golden, What It Sounds Like e Free ressaltam. São também as canções com o storytelling mais impactante, em que se ouve a narrativa a desenvolver.

Golden apresenta a backstory e os conflitos internos das protagonistas. Tornou-se no maior hit do álbum e com toda a razão: tem uma letra fácil de decorar, um instrumental eletro-pop sólido e ótimas prestações vocais. Quantas mais vezes se ouve, mais parece agradar aos ouvidos. No entanto, teria sido interessante uma outro que não fosse uma mera repetição da intro.

What It Sounds Like conclui as temáticas apresentadas em Golden. Rumi, Zoey e Mira podem não ser as heroínas perfeitas, mas continuam a ser lutadoras e encontram uma melodia que destrói os demónios. As vozes de EJAE, AUDREY NUNA e REI AMI encaixam tão bem entre si, fazem a harmonia entre ambas parecer fácil de alcançar. Subitamente, há um coro a acompanhá-las, a fortalecer a música. A canção culmina com alguns acordes num violoncelo, uma calmaria muito bem-vinda. Finalmente, as HUNTR/X conseguem cumprir a sua missão.

KDH é um musical, mas foge à regra clássica do género: as personagens estão cientes que cantam e dançam. Existe uma única exceção.

Free é uma balada onde se narra um amor proibido, um Romeu e Julieta ambientado numa fantasia moderna. Rumi e Jinu, uma caçadora e um demónio, confessam os seus sentimentos confusos um pelo outro, numa interação quase telepática. As vozes de EJAE e Andrew Choi combinam incrivelmente. A faixa provoca o pressentimento de que o romance a aflorar terá sobressaltos e termina com muitas dúvidas por responder. Será que as personagens poderão viver plenamente o seu amor? Ou será que, tal como na obra shakespeariana, a história irá terminar em tragédia?

O disco está organizado com pouca coesão. Entre as canções originais, temos o tema Strategy das TWICE, cujos direitos foram adquiridos para uso no filme. No entanto, as outras “canções emprestadas” apenas aparecem no final do disco. As músicas deveriam ter ficado separadas em blocos, ou então espalhadas segundo a ordem de aparição no filme.

O álbum termina com fragmentos da orquestração de Marcelo Zarvos. Se ao menos pudessem estar presentes mais momentos assim ao longo do disco! A faixa é uma lufada de ar fresco após se ter ouvido tanto pop.

Esta banda sonora está longe de ser perfeita. Mas, sinceramente, às vezes uma pessoa apenas precisa de algo leve e um tanto jovial como este disco! Mesmo com falhas, KDH tem uma das melhores bandas sonoras do ano. Por entre a imperfeição, há pormenores que se destacam. Qualquer uma das faixas presentes seria digna da nomeação ao Óscar de Melhor Canção Original.

Ao terminar de ouvir o álbum, resta a sensação de querer ouvir mais um pouco. Não se quer sair deste universo tão único e criativo. Seria interessante ouvir uma versão estendida da banda sonora.

Como nota final, fica o convite de acompanhar os cantores e outros artistas envolvidos em KDH. Na loucura de ver bandas fictícias a tornarem-se virais, é fácil esquecer que existem pessoas reais por trás disto. Ambas AUDREY NUNA e REI AMI navegam por vários géneros, adotando um som quase psicadélico. Já Andrew Choi segue um estilo melancólico e romântico. O grande destaque cai em EJAE que atinge beltings agudíssimos no papel de Rumi, dignos de fazer cair o queixo. Com certeza, EJAE é um nome a não perder de vista.