Blue da cantora canadiana Joni Mitchell, foi lançado a 22 de junho de 1971. O projeto folk não é um álbum para ser apenas ouvido: é um mapa de humores que atravessa uma vida inteira e traduz a dor, a esperança e as contradições do amor em canções. A composição é simples, com a voz no centro e uma sinceridade que soa quase indecente pela sua franqueza.
A produção evita ornamentos desnecessários: guitarras, piano e dulcimer aparecem gravados com uma genuinidade que faz parecer que os instrumentos tocam ao pé do ouvido. Esta escolha aproxima a cantora do ouvinte, muitas vezes dá até a impressão de um take único, quase um registo de rua domesticado, e potencia a vulnerabilidade das letras.
O núcleo temático do disco é a relação: amada, perdida, idealizada, analisada. Mitchell alterna o “eu” fora da relação com o “eu” dentro dela, compondo um retrato multifacetado. Há quem queira pertencer à vida e quem se reconhece mais forte na própria solidão. Em “All I Want”, a cantora expõe o desejo de que o amor traga o melhor de ambos, enquanto reconhece aquilo que o sabota, o ciúme e a ganância (“Oh, the jealousy, the greed is the unravelling / It’s the unravelling and it undoes all the joy that could be”).
“Little Green” envereda pela melancolia da maternidade e do sacrifício. A canção, sobre a filha dada para adoção, funciona como uma persistência da esperança. Triste, porém, ternamente protetora (“You’re sad and you’re sorry, but you’re not ashamed / Little green, have a happy ending”).
Ao percorrer as faixas, o álbum alterna momentos de pedido e confissão com instantes quase cinematográficos. Em “All I Want” a instrumentação reduzida e a percussão discreta transformam a súplica num pedido íntimo. Em “My Old Man”, o piano desloca-nos para cenas domésticas em que imagens quotidianas ganham peso emocional pela simplicidade, como a cama demasiado grande e a frigideira demasiado larga.
“River” mistura nostalgia e desejo de fuga, com uma versão taciturna de “Jingle Bells” que remete ao inverno e à melancolia de nos sentirmos sozinhos em festas abarrotadas. Enquanto “A Case of You” concentra tudo numa concisão lírica que transforma o amor em intoxicação e salienta que, mesmo acabando mal, o impacto da relação não pode ser ignorado (“I remember that time you told me, you said / “Love is touching souls” / Surely you touched mine / ‘Cause part of you pours out of me / In these lines from time to time”).
O final com “The Last Time I Saw Richard” deixa uma reflexão simultaneamente amarga e serena, uma aceitação crítica do que o romantismo se tornou para certas personagens do álbum. É daquelas ocasiões raras em que a última faixa de um álbum consegue ser das melhores.
Uma crítica justa a “Blue” é também a sua virtude: a uniformidade sonora. Ouvir o álbum de uma ponta à outra pode cansar quem procura variação, mas essa coerência mantém o disco como um relato contínuo e verdadeiro, em vez de um catálogo de estilos. A economia de meios funciona como figura estética, Joni Mitchell não precisa de artifícios para tornar a sua dor comunicável, ela prefere a clareza.
Blue é um álbum de confrontos interiores, entre a exposição e a preservação, entre a lembrança e o desejo, entre o que se ganhou e o que se perdeu. As canções não corrigem a dor, validam-na, e é por isso que, mesmo nos seus momentos mais tristes, o disco acaba por ser consolador, o ouvinte percebe que a sua tristeza é reconhecida e partilhada.
Artista: Joni Mitchell
Álbum: Blue
Editora: Reprise Records
Data de lançamento: 22 de junho de 1971



