Celebram-se os 80 anos de Gal Costa. A 26 de setembro de 1945, em Salvador, Bahia, nascia uma das maiores vozes de sempre.

Folha de S.Paulo

A música esteve constantemente presente na vida de Maria da Graça Costa Penna Burgos. Desde tenra idade, Maria da Graça sentia uma força estranha que a levava a cantar. A sua mãe sempre a incentivou a cultivar o gosto musical. Com as amizades que formou durante a infância, ganhou a alcunha “Gau”. Aos 14 anos apaixonou-se pela bossa nova, após ter ouvido João Gilberto a passar na rádio. No final dos anos 50, trabalhou numa loja de discos.

Fez a sua estreia a 22 de agosto de 1964, no espetáculo “Nós, Por Exemplo…” para a inauguração do Teatro Vila Velha em Salvador, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. O grupo de músicos acabou por se mudar para o Rio de Janeiro, atrás de melhores oportunidades como cantores.

No começo da sua carreira, a artista usava o seu nome civil. Porém, o produtor Guilherme Araújo, inspirado na alcunha de infância, deu-lhe a ideia de se chamar Gal. A cantora gostou tanto da recomendação que, anos mais tarde, alterou o seu nome no registo civil.

Gal partilhou a estreia nos álbuns de estúdio com Caetano Veloso. Lançaram em conjunto o LP “Domingo” no ano de 1967. Daquele ponto em diante, os cantores mantiveram laços fortes de cumplicidade e começaram a colaborar profissionalmente com frequência.

A artista fez parte do movimento Tropicália. A corrente artística juntava ritmos tropicais com o rock, trouxe a guitarra elétrica para o Brasil e críticas à Ditadura Militar. O movimento atingiu o seu apogeu com o álbum “Tropicalia ou Panis et Circencis” (1968). Mesmo após o exílio e a prisão de alguns músicos da vertente, Gal continuou a expressar a Tropicália na sua arte e no seu aspeto visual. Esta perseverança rendeu-lhe o título de Musa da Tropicália. Durante esta fase, participou nalguns festivais e concursos de canções na televisão.

O primeiro álbum a solo que lançou, “Gal Costa” (1969), incluía três dos seus maiores sucessos, “Baby”, “Divino Maravilhoso” e “Ele Não Gosta Mais de Mim”. Gal criou 31 álbuns durante mais de 55 anos de carreira. Outros dos seus hits foram as versões de 1969 e de 79 do tema “Meu Nome É Gal”, “Vapor Barato” (1971), “Lágrimas Negras” (1974), “Chuva de Prata” (1984) e “Um Dia de Domingo” (1985) acompanhada por Tim Maia.

A sua voz está presente nas bandas sonoras de muitas telenovelas. Gal cantou a música de abertura da clássica “Gabriela” (1975) e o tema “Brasil” para o genérico de “Vale Tudo” (1988 – 1989).

Gal Costa manteve-se em atividade até ao seu último dia. Estava em plena turné “As Várias Pontas de uma Estrela”, quando precisou realizar uma pausa após uma cirurgia médica. Pouco depois, a 9 de novembro de 2022, acabou por falecer, aos 77 anos.

Inicialmente, a família preferiu não revelar o óbito. Contudo, órgãos de comunicação vazaram a informação de que Gal entrou numa paragem cardíaca fatal, para além de ter cancro na garganta e no pescoço. O seu corpo está enterrado no Cemitério da Ordem Terceira do Carmo, em São Paulo.

A cantora costumava ser discreta com a sua vida pessoal. Era uma pessoa tímida. Odiava que os jornalistas fizessem perguntas sobre relacionamentos amorosos. Namorou algumas pessoas anónimas e figuras públicas, como os músicos Tom Jorge, Jorge Ben Jor e Marina Lima. Nos seus 20 anos finais, Gal viveu com a sua última parceira, a empresária Wilma Petrillo. Foi madrinha da cantora Preta Gil, filha do amigo Gilberto Gil. Em 2007, adotou o seu único filho, Gabriel Costa.

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A Musa da Tropicália esteve envolvida em muitas polémicas pelo vestuário que escolhia. Esteve em ainda mais escândalos pela falta de roupas em atuações e capas de discos. Nos últimos anos de vida, o seu nome esteve associado a dívidas empresariais e a supostos salários não pagos a funcionários domésticos.

O serviço de streaming HBO disponibilizou a série documental “O Nome Dela É Gal” no ano de 2017. Em 2023, estreou nos cinemas o filme biográfico “Meu Nome É Gal”.

O rapper Baco Exu do Blues, para o tema “Lágrimas” de janeiro de 2022, usou uma sample da canção “Lágrimas Negras”, tendo creditado Gal Costa como participação especial. A última gravação de Gal foi postumamente lançada em dezembro de 2022, uma nova versão do tema “Para Lennon e McCartey” com o dueto de Marina Sena.

Gal Costa foi indicada cinco vezes ao Grammy Latino e venceu um pelo seu legado em 2022. A revista Rolling Stone incluiu-a na lista dos 200 Melhores Cantores de Sempre, em 2023. A cantora alcançou o 90.º lugar.

Ao longo de décadas, Gal Costa explorou géneros como o rock, a bossa nova, a música popular brasileira e a eletrónica. Inspirou uma geração inteira de novos cantores. A Musa da Tropicália deixou uma marca profunda na música em português.

Muitos poderão admitir nunca ter ouvido a sua voz tamanha. Mas, com certeza, todos conhecem o nome Gal.