Desde a capa, com Eusébio e Amália, até à última música, Afro Fado, o terceiro álbum de estúdio de Slow J, lançado em novembro de 2023, mostra-nos uma ponte entre as raízes e a modernidade. Com este álbum o artista constrói uma cartografia afetiva do que é ser lusófono com marcas africanas, numa junção de fado e tensões identitárias.
Esta viagem começa com o single “Tata”, uma música energética, mas que mostra desde cedo a essência crítica do álbum. Com uma batida que fica no ouvido, a porta de entrada do álbum é capaz de cativar os ouvintes, fazendo-os refletir sobre o passado colonialista português através de frases como “Se o Dino falou em mudar o hino, falou/Bro, já ’tou falar demais” e “Pátria, mas quem são os teus pais?”.
“Where U @” a terceira faixa do álbum foi o primeiro single a ser lançado e marcou o regresso do cantor português, que não lançava músicas desde 2020, “Guess who’s back?”. Nesta faixa, João Coelho, mais conhecido como Slow J, faz uma associação entre as marcas do seu passado e das suas raízes e o seu presente como artista musical.
A quarta música do álbum “Nascidos & Criados” conta com a colaboração de Teresa Salgueiro, ex-vocalista da banda Madredeus, e é marcada pelos temas do medo, da pertença e da herança. Muitas vezes confrontados com o peso de um passado heróico, os dois artistas destacam a dificuldade em seguir os passos daqueles que nos antecederam “Onde eu pertenço, o medo não vence/Assim que eu penso, o medo voltou”.
Chegando a meio do álbum encontramos “Ultimamente”, uma das críticas mais duras desta obra musical. Além da óbvia reflexão e crítica a um passado recente, o cantor faz menção a alguém especial, mencionando a realidade por vezes escondida das relações atuais. Ainda nesta faixa, Slow J sublinha a importância dos sonhos e a forma como somos movidos por eles.
A música que se segue é carregada de significados e talvez uma das que mais permite que os ouvintes se identifiquem. “Terra”, ao som do piano e da batida inquietante do adufe, fala sobre a falta de um lugar onde nos sintamos verdadeiramente em casa. O artista faz novamente uma crítica, desta vez ao facto de estarmos tão habituados a contestar mesmo quando nem sempre temos motivo, “Se a vida é de cão ladramos e não lembramos porquê/Interessa é ter quem culpar”.
Para fechar o álbum, Slow J presenteia-nos com mais uma colaboração, desta vez com Gson, membro da banda Wet Bed Gang. “Origami”, o tema mais longo, mostra-se também o mais complexo, já que transmite uma grande diversidade de mensagens. Aqui percebemos o quanto a música pode mudar e moldar a sociedade, “Com uma folha de papel mudarmos o mundo, isso era ridículo”. Antes de terminar esta viagem ainda conseguimos perceber, uma última vez, que o cantor não se desprende das suas raízes, usa-as antes como inspiração.
Com este álbum Slow J reconstrói um espaço simbólico que combina o estilo Afro e o Fado, o que acaba por funcionar como uma afirmação de ambos. Desta forma deixa bem claro que ambos os estilos são versáteis e não têm função única. Assim, numa produção que roça a excelência, o cantor consegue questionar a noção de “terra natal” e projeta uma obra que não tem medo de ser contraditória.
Álbum: Afro Fado
Artista: Slow J
Editora: Sony Music Entertainment Portugal
Data de lançamento: 24 de novembro de 2023



